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Por Luísa Aranha

Um dia desses vi uma polêmica em um grupo de leitoras: por que toda história de amor tem uma traição?  Elas discutiam porque as narrativas não poderiam ser só de amor, sem que personagens protagonizassem tanto sofrimento com traições. E elas não se queixavam só das traições conjugais, mas de amigos, colegas de trabalho e das de família. As de família, segundo elas, eram traições mais sofridas que as conjugais.

Minha primeira reação foi me doer como escritora, afinal, meu último lançamento foi As vantagens de ser traída, um livro doído de escrever, porque foi inspirado em algo que eu passei com toda a crueldade da vida real. E foi então que me ocorreu: as traições são tão presentes nos livros porque elas são, infelizmente, presentes em nosso cotidiano. Pense por um minuto comigo e conte nos dedos pelo menos cinco casais que você conhece que se separaram por traição. Sei que você encheria mais de uma mão se forçar a memória. E quantos casos reais de irmãos que não se falam, de sócios que brigaram, de amigas que deixaram de ser amigas, porque alguém foi desleal com o outro?

Pois é… Nosso cotidiano está cheio de histórias dessas. Centenas de músicas são compostas com esse tema. Não é de hoje, da onda das cantoras de sofrência que tomaram conta do cenário musical, que elas existem. Beth Carvalho, em 1978 já entoava e levantava multidões que se identificavam e cantavam a plenos pulmões:

*Eu vou festejar,*

*Vou festejar!*

*O teu sofrer*

*O teu penar…*

*Você pagou com traição*

*A quem sempre*

*Lhe deu a mão…*

E se formos buscar em músicas, livros, revistas, jornais, filmes, séries, ou onde você quiser, traição é assunto recorrente e cada vez com mais frequência. Por que? Porque as referências de produções artísticas e culturais são baseadas nas nossas vivências, no mundo que nos cerca e no cotidiano. A arte imita a vida. Ou é a vida que imita a arte? Seja como for: deslealdade está presente.

Dando-me conta disso, resolvi interagir no grupo de leitoras, questionando o comportamento humano. E temos que admitir:  a humanidade trai. O tal do livre arbítrio faz a gente escolher ser desleal com o outro. Não é acidente, não é impulso, não é. É escolha ou é falta de interpretação de texto, de diálogo e de conversas claras entre duas pessoas. Será?

Em quantos relacionamento você já entrou e nunca conversou com o parceiro sobre o que exatamente aquele relacionamento significava, quais eram as regras e quais os acordos que fariam? ALGUM? NÃO? NENHUM? Pois é. Temos a mania de supor que o outro enxerga o mundo como nós. Mas o que para uns pode ser só uma brincadeira sem significado, para o outro pode ser o apocalipse zumbi (que, convenhamos, é bem mais foda que um apocalipse normalzinho…).

Você pode até saber o que o outro viveu, as experiências que teve, os traumas que sofreu, as curas que encontrou e quais os sentimentos que teve. Você pode até conseguir se colocar no outro e entender as dores e alegrias que ele teve, mas se você não ouvir uma conclusão do tipo: “por isso acho que beijo na boca é traição”, pode ser, que para ele, isso seja apenas uma brincadeira.

Por que temos mania de achar que conhecemos o outro baseados em fatos que ele nos conta e não em suas crenças? Não seria mais fácil se todos os relacionamentos começassem baseados em “vamos colocar as nossas cartas e fechar nossas regras e acordos agora, para diminuir as chances de frustrações futuras”?

Somos pessoas diferentes, percorrendo estradas diferentes, que em algum momento se cruzam na vida. Não vimos as mesmas paisagens e, por mais que o outro nos descreva com clareza de detalhes, nossa imaginação se encarregará de completar as lacunas com nosso conhecimento. Se para mim beijo na boca é traição, no primeiro carnaval que o outro beijar alguém, sofrerei. Mas se eu souber que o outro acha que beijo na boca na folia não tem nada demais, aí eu tenho a escolha de ficar e aceitar a nova visão de mundo. Ou de pular fora. Continua sendo uma questão de escolha.

Não tenha medo de começar um relacionamento conversando. Ao contrário, se jogue, pergunte, diga sua opinião, aparem as arestas, façam suas regras e sejam felizes. Nem sempre o que a gente cresceu achando que era certo ou errado é realmente certo ou errado. Algumas vezes, foi só algo que a sociedade incutiu em você e você, na realidade, nem se importa tanto com ele assim.

Se quiser pensar mais sobre o assunto e refletir sobre conceitos de traição, deixo uma lista de filmes e livros que utilizei como material de pesquisa para  escrever As vantagens de ser traída, no final do post.

E para finalizar, toda história de amor tem uma traição? Sinceramente?! Não sei. Acho que depende muito de como é a conversa lá no início do capítulo!

***Filmes***

  • O que os homens falam
  • O lado bom da vida
  • Atração fatal
  • Beleza americana
  • Closer

***Livros***

  • Dom Casmurro (Machado de Assis)
  • A besta humana (Émile Zola)
  • Madame Bovary (Gustave Flaubert)

Beijos e até a próxima!

 

Luísa Aranha é jornalista, blogueira e escritora. Tem o chimarrão como seu companheiro inseparável nas horas de trabalho. Escrever para ela é tão natural quanto respirar. Antes de ser alfabetizada já era uma contadora de histórias, inventando brincadeiras e diálogos com suas bonecas. Todos os seus trabalhos podem ser conferidos no seu site: www.luisaaranha.com.br.