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“Me apresentando”

Oi. Eu sou Amanda Virginia, tenho 31 anos e sou alguém.

Posso não ser alguém para você, mas algumas pessoas me conhecem como mãe, irmã, filha, esposa, trabalhadora, esforçada, impaciente, estourada, leal e amiga. Leitora assídua e compulsiva. Por favor negra, não morena. Não cor do pecado e nunca, jamais mulata.

Nessa brincadeira de me definir esqueci de dizer minha grande, gigantesca paixão. Sou escritora, sou um mar constante de ideias, ilusões e alucinações. Nem sempre esse mar é pacífico e cristalino, muitas vezes ele é revolto, turbulento e turvo.

Então desses três parágrafos você pode tirar que eu sou impaciente, negra e tenho muita imaginação.

“Entendendo a carência”

Um dia, anos atrás uma amiga me indicou um livro e quase caí para trás quando li a descrição da protagonista ela era negra. Se eu disser que não tenho sentimentos para expressar meus sentimentos derrubaria minha carreira de escritora sem ao menos ter começado. Mas o que eu senti foi basicamente um abraço de mãe quando você chega em casa depois de um péssimo dia.
Quanto mais eu lia a belíssima história que mudou um pouco minha trajetória, mais me sentia acalentada, confortada.
Uma linda negra em um livro belíssimo aonde ela protagonista, aonde ela não era empregada, babá ou qualquer profissão que é estereotipada para nós negras.

Depois de um tempo pensei na minha biblioteca  nos últimos 89  livros que tinha lida e quando eu vi algum tipo de protagonismo negro, seja masculino ou feminino, e me ocorreu que apenas não existia. Naquele mar de lindas loiras com longos cabelos lisos, olhos azuis e seios leitosos. Nunca tinha lido sobre uma negra com lindos cabelos crespos e pele cor de chocolate.

Devo admitir que minha sede aumentou, depois que terminei de ler aquele livro e ter indicado a qualquer pessoa alfabetizada eu procurei mais e mais.  Personagens negras apenas PDF, que forma odiosa de honrar quem teve o peito de enfrentar o mercado editorial e escrever personagens negros.

Enquanto isso, o boom dos livros românticos eróticos continuava, livros e mais  sendo lançados e nenhum personagem negro para abrir aquele lindo livro, abraçar e cheirar (quem é leitor vai entender essa necessidade).

Algumas belas histórias, fui atrás de seus criadores e adivinha só alguns deles eram negros. Mas, como pode você negro não publicar um livro aonde seu personagem seja negro?

A equação era simples, eu apenas não conseguia chegar ao resultado.

“Wattpad abrindo portas”

Ao conhecer esse aplicativo que é tanto amado quanto odiado, conheci histórias – boas histórias- de romances aonde a protagonista era negra e isso reacendeu a chama de poder ler história aonde eu poderia me identificar ou me ver como heroína.

Afinal não é esse o objetivo de ler?
Viajar nas linhas e entrar em um mundo de amor, aventura, ação ou ficção…

Talvez se você chegou a esse ponto do texto e está se perguntando o que essa mulher tanto fala?

Então vou explicar um pouco mais exemplificado.

Uma mulher branca, hétero na faixa dos 20 aos 35 anos. Se ela chegar em um livraria ou no kindle ela terá centenas, não milhares de opções literárias com personagens aonde ela facilmente poderia se encaixar no perfil.

Você também pode se perguntar porque isso é tão importante?

Mas, se não é importante.

Porque não há personagens negros na mesma proporção que há personagens brancos?

Por que tem que ser a exceção?

O wattpad por ser uma plataforma livre deu liberdade aqueles que sempre quiseram escrever, mas o corredor estreito e apertado da literatura brasileira nunca deu a menor oportunidade desses minúsculos artistas abrirem suas asas e voarem.

Escolha um autor na plataforma e pergunte porque você escreve com personagens negros. Aposto alto que 90% dos escolhidos vão te responder: estava cansada de não me ver em nenhum livro.

Então foi isso que eu fiz, sentei meu grande corpo numa cadeira e comecei a ordenar meus pensamentos e escrevi minha primeira história. Nada grande, nada digno de premiações apenas uma grande história de amor entre.

Entre duas pessoas que parecia ser impossível.
Isso eu tenho feito desde que comecei a escrever.

“É muito bom, mas…”

Quanto mais escrevia mais autores maravilhosos eu conhecia. E sempre desejava saber porque esses autores não tinham os livros publicados nos quatro cantos do Brasil. Autores com mais de 500 mil leituras ainda não eram boas suficientes para ter seus escritos publicados? Após mandar meu livro para avaliação eu entendi o por quê.

Em uma mensagem privada – não por email, seria oficial demais – recebi uma “dica” da representante da editora.

“Seu livro teria muito mais chances de sucesso se você mudasse a etnia da sua personagem”.

Assim. Desse jeito, meu sonho que levei um ano e meio para construir foi reduzido a uma cor de pele porque livros com negros não são comerciais suficiente.

“Você representa?”

Novamente me pergunto. Se a cor da pele não importa para quem escreve, porque os papéis de protagonismo são com pessoas com características europeias?
Mulheres com pernas longas, pele leitosa e lindos olhos azuis.

Ou as raras ocasiões que um personagem é caracterizado como negro os traços são “minimizados”. Ex: cabelos ondulados não crespo ou cacheados, olhos cor de chocolate, a pele é descrita como mel ou bronzeada…

Eu, como escritora e leitora, tenho esses questionamentos e muito mais. Não quero encher sua cabeça querido leitor com meus medos, lutas e preocupações.

Mas se dê o trabalho de pensar fora da caixa um pouco e use a empatia – sim, se coloque no lugar do seu próximo.

Pare e pense comigo, sente e debata com quem passa por isso diariamente.

Questione-se.
Estude.
E entenda que essa é uma realidade próxima e não algum vitimismo inventado.

“Deixe a liberdade reinar. O sol nunca brilha tão glorioso como diante de uma conquista humana.” – Nelson Mandela

As opiniões expressadas aqui tratam de opiniões pessoais, discutidas e que em debate descobri muito que compartilham da mesma opinião que a minha. Juntas compartilhamos mesmo sonhos, sorrisos, lágrimas,  gostos e desgostos.

Amanda Virginia O Costa Cantarin. 31 anos, escorpiana. Casada, mãe do Pax de 3 anos. Nascida em Feira de Santana – BA. Mora em Cabo Frio, RJ. Leitora assídua, compulsiva e frenética. Autora apaixonada e intensa