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Crescemos ouvindo o mito da democracia racial sobre nosso país. Somos descendentes de índios, europeus, negros e carregamos todas as cores em nosso sangue. De fato, a mistura faz parte da nossa origem. Mas desde a construção desse discurso na primeira metade do século XX, ele tem sido utilizado pra apagar e invisibilizar as minorais raciais. Os temos “mestiço”, “mulato”, “pardo”, “moreno”, muitas vezes trazem consigo a ideia de um apagamento étnico. Numa hierarquia, quanto menos se tiver de herança afro-brasileira ou indígena, melhor.

Desde a escravidão, é negado ao negro lugares de privilégio e acesso às lugares básicos. Claro que há exceção, mas exemplos raros não devem justificar a meritocracia. Ou seja, a ideia de que apenas com o esforço conseguimos chegar em qualquer lugar. É óbvio que podemos porém as diferenças sociais, o acesso à educação e uma série de fatores tornam a vida mais difícil para alguns. Todo dia milhões de diferenças entre negros e brancos reforçam um sistema desigual. É importante entender que o racismo não passa apenas por atos de discriminação explicita, ofensas e piadas. O racismo está presente na construção da nossa sociedade, ele é institucional e sistemático. Está presente nas empresas, na mídia, nos produtos culturais. Ele é difundido e reforçado em diversas esferas. Quando negros morrem muito mais que brancos, quando são mais abordados pela polícia, tem menos acesso à educação de qualidade, menos oportunidade de empregos e em diversas outras situações.
Por tantas dificuldades, é muito mais difícil para um negro ou “mestiço” chegar num lugar de destaque. E quando chegam são inviabilizados ou tem sua condição negada ou apagada sistematicamente. É o caso de nosso maior escritor, Machado de Assis, que é embranquecido na história brasileira. O autor de “Dom Casmurro” era filho de uma mãe portuguesa e um pai operário, um “mulato” ou um negro de pele clara. Preconceito parecido sofreu Lima Barreto, que apesar de resgatado recentemente, passou anos no esquecimento. Pobre e suburbano, retratou a vida marginal em suas obras. Sem o reconhecimento em vida, morreu solitário e sem pisar o chão da Academia Brasileira de Letras fundada por Machado anos antes.

O apagamento de personagens como esses, reforçam a ideia de um racismo estrutural. Afinal, um bom autor é só um bom autor. Nunca é um bom “autor negro”. E autor “branco” é só um autor comum. Uma das faces mais cruéis do racismo é a ideia que um homem comum ou um intelectual é sempre branco. A dicotomia entre brancos e negros é frisada, afinal um só existe em relação a outro, e existe para reforçar um sistema onde ser branco é o “normal”. Mesmo que biologicamente só exista a “raça humana”, a ideia de raça é difundida culturalmente e socialmente sendo criada através da nossa história.

Partindo desse “lugar comum”, as mulheres negras escritoras nem deveriam existir. Mas elas resistem através do tempo, em número ainda menor que os homens e sem nem aparecer nos livros didáticos. Como o caso de Maria Firmina dos Reis, autora romântica do século XIX. Primeira mulher a publicar um romance no Brasil e também pioneira numa história abolicionista, o livro “Úrsula” é de 1859. No século XX, podemos citar Maria Carolina de Jesus, que escreveu “Quarto de despejo”, sobre a realidade de ser negra e pobre. E mais recentemente, Conceição Evaristo ganhadora do prêmio Jabuti e que leva para seus títulos um processo lindo de “escrevivência”.

A literatura é forma de mudança social. Ela pode fazer parte de um sistema que reforça o racismo e a desigualdade ou ser forma de transformação na nossa sociedade. Apostando na representatividade, na diversidade e mudando padrões sociais. Com mais autores negros, falando de personagens negros e temáticas da realidade brasileira, podemos empoderar e motivar cada vez mais pessoas a escreverem, de todas as raças, cores e gêneros.

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Leonardo Antan é o mais jovem autor a publicar com a Rico Editora. Além de colunista, é mestrando em História Da Arte e diverte centenas de leitores pelo país com seu recém-publicado livro: A Gente Dá Certo