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por Luísa Aranha

Eu  entendo que, culturalmente, nós  meninas    somos criadas para acreditar nos contos de fadas, no
príncipe encantado e no  cavalo branco. Que desde  pequeninas, alguém nos chama de  princesa e as primeiras historinhas que ouvimos nos contam  como os  homens podem ser bons e maus conosco e que  os  bons  são  os  que  cuidam.   E,  então,  isso fica martelando em nosso inconsciente e, quando crescemos, queremos encontrar um homem bom, que cuide de nós, como os príncipes das princesas.

Não se preocupem, esse texto não pretende desconstruir a sua ideia de final feliz — mas que você refletisse sobre o por quê PRECISAMOS de um homem bom eu me sentiria imensamente grata ao Universo, isso seria verdade —, mas vamos falar sobre como essa ideia de contos de fadas pode fazer você cair em uma verdadeira cilada. E esse texto não é só dirigido as meninas. Ele foi escrito para PESSOAS, como eu, você e todos a sua volta, que em alguma momento da vida, podem ter caído — ou estão — numa roubada.

Lançamento da Netflix vira febre, né?! Eu tenho acompanhado — e obviamente assistido — muita coisa boa, alternativa e com boas mensagens pelo aplicativo. E não foi diferente quando terminei
de assistir You, série lançada no início do ano e que mostra o comportamento de um abusador. Joe é doente. Ele fica obcecado por uma mulher quando coloca os olhos nela pela primeira vez e manipula tudo e todos a sua volta para atingir o seu objetivo: ficar com a garota. Cheguei ao fim da primeira temporada batendo palmas. A forma usada para narrar a história é o ponto de vista do Joe, mas sem deixar de mostrar as consequências do que o modo de agir dele causa. Fiquei realmente impressionada com o que a série mostrava e fazia a gente refletir sobre o comportamento humano e nossos conceitos sobre amor, relacionamento e posse.

Porém, uns dias depois comecei a ver posts pipocando pelas redes sociais, pessoas idolatrando Joe, querendo um Joe pra si.

Epa, epa epaaaaaa! Será que as pessoas não entenderam nada? Será que não se deram conta do fim da temporada — que não darei spoillers, mas poxa… fica bem claro o que ele fez com a mulher —? Será que o mundo está tão doente assim, que um relacionamento abusivo virou o ideal de consumo?

Foi ai que minha ficha caiu. Não era o relacionamento abusivo. Era o Joe. As pessoas não conseguiam perceber a nocividade de Joe — e tudo que ele representa — porque ele era o cara querido. Aquele que estava sempre ali, que não media esforços em ajudar, em ser presente, em demonstrar carinho. O Joe era o namorado compreensível, educado, inteligente, culto, sempre disponível e pronto para ajudar, que toda mãe deseja pra sua filha. O príncipe encantado da modernidade liquida.

E eles sempre são assim. Os Joe’s da vida chegam dessa forma. Eles são cativantes, te cercam, te idolatram, te fazem sentir a pessoa mais especial do planeta, quiçá da galáxia. Até que um dia, sem nenhuma intenção, ele diz que sua roupa está curta, sua amiga é puta, seu amigo quer te comer. Um dia ele te pergunta se você não vai mudar a foto do Instagram. Se não, acha que está na hora de você mudar. Então eles vão ficando irritados, gritam, te chamam de burra, de puta, de qualquer coisa que te machuque. Aí eles pedem desculpas, a gente perdoa, porque afinal, ele é o homem bom, o príncipe dos nossos inconscientes. Mas depois, os xingamentos passam a ser constantes e eles começam a ser acompanhados de apertos no braço, puxões de cabelo, de orelha, tapas, empurrões. E a gente já não sabe o que fez de errado, porque o príncipe virou um sapo, que vive dando, literalmente, em mim.
O fim dessa história, pode ser como na série — o que é o que mais acontece na vida real — ou pode ter um final feliz. Mas enquanto perpetuarmos o mito de que PRECISAMOS de um homem bom, continuaremos tendo histórias como You e pessoas se apaixonando pelo seu Joe.

Bjos e até a próxima!
Luísa Aranha

Sugestão de leitura:

Violetas Ao Vento

Apenas O Nada

Diário De Uma Escrava

Sugestões de filmes e séries:

You
Antes De Dormir
Nunca Mais!

                                                                                                                                                                                     

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Luísa Aranha é jornalista, blogueira e escritora. Tem o chimarrão como seu
companheiro inseparável nas horas de trabalho. Escrever para ela é tão natural quanto respirar. Antes de ser alfabetizada já era uma contadora de histórias, inventando brincadeiras e diálogos com suas bonecas. Todos os seus trabalhos podem ser conferidos no seu site: www.luisaaranha.com.br