Por Marlos Quintanilha

As pessoas que se matam não querem necessariamente morrer, elas querem se livrar do sofrimento. E quanto mais tabu existir, ao invés de acolhimento, mais são as chances dele acontecer. O primeiro passo para a prevenção é falar sobre o suicídio”, diz a psicóloga e coordenadora do Instituto Vita Alere, que faz prevenção ao suicídio, Karen Scavacini.

Desde os primórdios da história temos registros de pessoas deprimidas, resultando um estado suntuoso de extrema melancolia. E na geração contemporânea não é diferente. Falar de atualidade sem falar de Internet é quase impossível. O debate em torno da premissa de que a “rede” próxima quem está longe e afasta quem está perto é praticamente inconclusivo, dado às particularidades de cada um à respeito do assunto. Não há como criar uma fórmula para seguir o certo ou o errado para não cair em tal firmação. Há um ditado que diz: “a grama do vizinho é sempre mais verde que a sua”. Talvez, realmente estejamos numa geração em que seguir os padrões do outro seja uma via de regra. Talvez.

Quem nunca quis fugir da realidade e mergulhou nas páginas dos livros? Atire a primeira pedra quem nunca esteve numa dor de cotovelos daquelas e colocou aquela música bem melancólica só pra chorar. Assim como também fazemos ao contrário, para externar nossa alegria. Usamos com fervor a arte para expressar nossos sentimentos, tanto felizes quanto os tristes. O que queremos é expressa-los. Essa coluna dedica-se à literatura. E é aqui que vamos traçar o paralelo entre autor e leitor.

A frase usada no topo desse texto é uma das visões da Organização Mundial da Saúde, a OMS. Por anos o depressivo estava com pouca fé, assombrado por forças sobrenaturais ou era fraco. Nos dias atuais, realmente falta fé na humanidade, somos assombrados pelo medo do porvir e acredito não sejamos fracos, todavia, somos fortes por muito tempo. A literatura é um espelho onde podemos enxergar retalhos de nossas almas nas personagens. Mesmo sabendo que trata-se de histórias criadas na mente de alguém, no fundo cremos que este alguém, no caso o escritor, em algum momento vivenciou direta ou indiretamente aquela situação e então nos sentimos acolhidos, descobrimos que não somos os únicos a sentir tais dores. E que de alguma forma essa dor silenciosa foi percebida, ouvida e amparada. E quando se trata de uma história baseada em fatos é ainda mais arrebatador pois temos a oportunidade de olhar o sobrevivente e perceber que é possível vencer.

Criar um tabu em torno da depressão só piora a situação, visto que a falta de conhecimento nos deixa feito cegos. Simplificar, romantizar ou reproduzir atos depressivos não é aconselhável por profissionais da área da psicologia. Entretanto é importante mostrar de forma clara, tanto para quem sofre com a depressão quanto para quem convive com um repressivo, quais sinais devem ativar nossa empatia, às vezes adormecida pela agitação cotidiana. Por falar em empatia, você lembra a última que se colocou no lugar do outro, esqueceu-se de si momentaneamente e ofereceu ajuda?

Talvez, mesmo sem que você perceba, todos os dias alguém está sinalizando pra você que lhe deposita confiança o suficiente em você e está pedindo por socorro. E acredite, muitas vezes esse pedido é silencioso e você só perceberá com os olhos da alma. Você não precisa estar ao lado da pessoa para perceber que ela não está bem. Voltando à premissa da geração Internet, podemos ver que, por muitas vezes, os amigos virtuais são aqueles que percebem quando algo não vai bem. Logicamente, não podemos desabonar o papel dos amigos que estão por perto. Estes, quando verdadeiros e sensíveis, são essenciais.

O papel da Literatura é sem dúvidas uma via de mão dupla. De um lado temos uma mente fervilhando de ideias, às vezes permeadas por experiências pessoais que darão o tom verdadeiro às histórias. É uma forma de colocar parte do nó na garganta para fora. É o grito silencioso através das palavras escritas. Já do outro lado existe um leitor ávido para encontrar um coração aberto para mergulhar sua dor e repousar, ainda que por pequenos instantes, sua alma dolorida. E é nas páginas dos livros que nos entregamos sem medo. Sem dedos apontados para nossa dor. Não há julgamentos. Existe um afago que alcança o âmago e nos faz acreditar que sim, ainda há solução. Escrevo esse texto com lágrimas, não de tristeza. Hoje desato um dos nós na minha garganta, não diferente de muitos.

Marlos Quintanilha é nascido em Itaboraí – RJ, formado em Administração e Pedagogia Cristã. Publicado nas editoras Andross, Rico, Porto da Lenha, Darda, Autores Independentes e Amazon. Idealizador do projeto Contos Coletivos, publicados semanalmente no blog Contos Coletivos e membro da ABERST.