Foto Coluna Mhorgana Alessandra 17.03

“E um estranho pensamento me ocorreu, o de que a luz do Inferno deveria ser tão brilhante quanto a luz do sol, e seria a única luz que eu veria de novo”.

(Lestat de Lioncourt – O Vampiro Lestat / Anne Rice)

por Mhorgana Alessandra

Já é de longa data, que a literatura e os vampiros caminham juntos, roubando sustos e sorrisos de seus aficionados leitores. Estão intimamente ligados à poesia, aflorando a imaginação humana e seus medos primordiais. As lendas vampirescas existem há milhares de anos, mas só ganharam maior destaque no século XVIII. Os vampiros se popularizaram no século dos Diderots e dos Voltaires, na Europa. O nome era dado aos homens que, segundo as lendas, voltavam após a morte, mesmo depois de enterrados. Reapareciam caminhando, molestando as pessoas, sugando-lhes o sangue e causando suas mortes. O único meio de se livrar deles era exumá-los, queimá-los, empalá-los, ou cortar-lhes as cabeças. Aqueles que morriam vitimados pelos vampiros, tornavam-se um deles. Era um sanguinário ciclo de mortes e o vampiro tornar-se-ia imortal, não somente pelo sangue humano que ingeria, mas pelo seu mito.

As histórias de vampiros representam um tema recorrente nas mais diversas culturas. Seres vampirescos já apareciam em Homero e nas Mil e Uma Noites, embora a crença neles tenha surgido entre os povos eslavos, onde o vampirismo se propagou como uma peste, causando numerosas mortes. Segundo Voltaire: os vampiros são mortos que durante a noite, saem dos cemitérios para sugar o sangue dos vivos, através da garganta ou do ventre. O padre francês Dom Augustin Calmet, primeiro vampirólogo de que se tem notícia, registrou vários casos que serviram de base para os ficcionistas construírem histórias e lendas.

Os vampiros logo atraíram a atenção dos escritores. Victor Hugo, Merimée e Goethe escreveram poemas vampirescos. Jean Jacques Rousseau tinha uma convicção grande na existência deles. Assim, os sugadores de sangue, ganharam seu ápice em forma literária, com William Polidori, o jovem médico de Byron. Ao basear-se na figura de Byron para construir o seu personagem, Polidori consagrou o modelo do vampiro de origem nobre, sofisticado e elegante. Byron foi chamado de gentleman-vampyre por Tristan Corbièr. Antes de Polidori, as histórias de vampiros compiladas por Dom Calmet, tinham como protagonistas homens do povo: aldeões, soldados, camponeses. Polidori retira o vampiro da periferia e o molda tal como o conhecemos até hoje: rico, nobre, bonito e sedutor.

As implicações sexuais do vampiro e a necrofilia, despertam fascínio nos escritores ao longo do tempo.  Podemos citar um texto interessante: Carmilla, de Sheridan Le Fanu, que retrata a história de uma vampira homossexual e pedófila.  Mas a história de vampiros mais grotesca é Viy, de Nicolai Gogol, onde um estudante mata uma bruxa e é forçado pelo pai dela a ficar velando o seu caixão. Fantasmas, de Ivan Turgueniev, é a mais espiritual de todas, descrevendo os passeios noturnos de uma bela mulher vampiro. Temos ainda, uma complexa história de amor, com Alexey Tolstoi em O VampiroA Família do Vurdalak, um conto de vampiros sérvios, publicado na Rússia.

Mesmo com muitas histórias sobre esse tema, a mais célebre e popular é Drácula, de Bram Stoker, inspirado numa figura real: o nobre chefe militar Drakula, terror da Valáquia no século XV, uma obra nascida entre a literatura gótica e a literatura fantástica. Uma lenda sobre Vlad III, filho de Vlad Dracul, cujo corpo desapareceu do túmulo após sua morte, pode ter sido uma grande inspiração para Stoker. O vampiro nobre e sedutor, que dorme em terra nativa, tem medo de espelho e só podia entrar em uma casa se for convidado. A religião também começa a dar suas primeiras pinceladas no combate ao vampiro: há crucifixos, orações e citação de trechos bíblicos na obra.

Anne Rice, em 1976 escreveu Entrevista com o Vampiro, dando um novo foco ao tema. Ela romantiza os personagens e a questão religiosa pesa mais ainda na obra de Rice. Aqui encontramos um vampiro que levanta questões morais e tem nostalgia de seu antigo lado humano. Segundo Rice, “O mal é sempre possível. E a bondade eternamente difícil”. Stephenie Meyer renovou a literatura vampiresca e atraiu leitores e popularizou o gênero, mesmo sendo mais uma história de amor, do que algo aterrorizante. O ponto em comum se tornou então, o romance entre um humano e um imortal. Através dos tempos, o mito do vampiro se reinventou, se transformou, mas ele sempre voltou de seu esconderijo nas sombras para atacar o pescoço indefeso de suas vítimas.

Com a globalização e a internet, a literatura sobre vampiros no Brasil, se tornou muito popular. A partir da década de 2000, surgiram nomes que se destacaram com histórias vampirescas, como o escritor André Vianco, que ficou conhecido pelos livros: Sete, Penumbra, Bento, A Bruxa Tereza, Cantarzo, As Crônicas do Fim do Mundo, dentre outros. Outro escritor nacional de destaque no gênero é Artur Laizo, mineiro e autor de dois livros sobre o tema: A Mansão do Rio Vermelho I e II. Ele sempre teve interesse pelo assunto e acredita que: “o vampiro é um ser forte, elegante, sensual e tem poderes importantes, como a imortalidade e o poder de persuasão”. Ele completa: “adoraria ser um vampiro e inspirei meus livros na imagem do Drácula, criação do meu grande ídolo do gênero, o pai de todos: Bram Stocker”. Além dele, cita como seus preferidos, os escritores: Anne Rice e JR Ward.


MHORGANAMhorgana Alessandra, é mineira, psicóloga e escritora. Diretora da Anima – Núcleo de Desenvolvimento Humano, ministra palestras e consultorias sobre diversos temas do comportamento humano. Casada, mãe de duas lindas meninas, participa como autora e organizadora em diversas antologias. É idealizadora do blog literário Literanima, colunista da Eu Leio Brasil e membro do projeto A Arte do Terror e da Associação Brasileira de Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror (Aberst).