Ouroboros, ou os Autores Nacionais

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Após alguns dias de maratona extensiva – devido à Bienal, não ao Netflix – estou de volta. Participar como agente e escritor da maior feira literária do Brasil é cansativo, estressante, mas extremamente gratificante. O contato direto com o mercado, em todos os seus âmbitos, é necessário. Não dá retorno rápido, na maioria das vezes nem traz retorno financeiro algum – se analisar os gastos da viagem com os livros vendidos, mas é necessário.
E é na Bienal que o escritor, sob pressão e sendo visto o dia todo sob os holofotes das editoras e leitoras que revela o seu pior – ou melhor lado. Acaba por deixar cair as máscaras, movido talvez por outros, ou pelo seu ego que deseja se destacar. Pois é, ninguém comenta, mas todo evento tem as suas intrigas, fofocas e falsas cordialidades, que se refletem nas semanas posteriores nas redes sociais.
E muita gente fica igual à repórter do telejornal, olhando aquilo, torcendo o nariz e falando: que deselegante…
Mas isso só acontece nesses períodos, você quem lê este texto deve estar se perguntando. E eu respondo: infelizmente, não. Se me pedissem para desenhar uma imagem que representasse os autores nacionais, ou pelo menos a maioria deles, iria fazer sem hesitar o grafismo de um ouroboros. Aquela serpente comendo o próprio rabo, sabe?
E não estou falando no sentido de eternidade, do ciclo eterno das coisas e seu possível retorno. Mas sim como em vez de crescer, muita gente anda em círculos, perseguindo seus próprios rabos. Falta-se generosidade, empatia e companheirismo entre os autores.
Quanto tempo você costuma ler um livro? Dois dias, uma semana, um mês? A maioria dos leitores leva esse tempo em média. E o escritor, mesmo escrevendo em um ritmo intenso, publica 3, 4 livros ao ano, certo? E o que ele vai ler o restante do tempo? O livro do amiguinho, é claro! Então porque não manter um bom relacionamento com os outros autores?
Não há concorrentes no mercado editorial. Quando uma pessoa cresce como escritor, a cada leitor novo conquistado, é um ponto para a nova literatura brasileira, pois ganha espaço na estante e no coração das pessoas. Indicar outros autores, ajuda-los a vender os seus livros e parar de falar mal do amiguinho é algo necessário. Tem algo para resolver? Faça no privado. Mas não tente chamar atenção dos leitores através das chamadas “tretas”. Isso não pega bem, principalmente para as editoras que estão de olho em você.
Ao tentar fechar as portas dos outros, você acaba fazendo o mesmo com as suas.
Que tal todos os autores se mobilizarem para fazer diferente? Quer que o seu trabalho seja respeitado e tenha o destaque merecido? Faça o mesmo com o amigo de letras. Não estou dizendo que deva cair de amores repentino pelo outro, mas que pelo menos o respeite, com suas qualidades e defeitos. Temos a força da presença nas mãos, da predisposição, da acessibilidade, e não utilizamos isso a nosso favor, como força conjunta. Oferecer o melhor ao leitor e incentivar que ele leia literatura nacional é um ponto-chave para o crescimento. Se o que escreve não é o gênero que o agrada, mostra o de outro autor, que temos na literatura brasileira aquilo que ele quer, com situações e pessoas que ele se identifica.
Quando todo mundo se unir tenho certeza de que o quadro muda. Quando um segmento se valoriza e dá o valor devido, cresce junto e começa a chamar a atenção, de forma positiva, por todos os lados. Temos pessoas que fazem isso, pequenos grupos que tentam fazer isso em passos de formiguinha, aqueles que os outros, desinteressados, muitas vezes chamam de panelinhas. Mas ainda não são a maioria. Que tal todo mundo se unir e fazer um panelaço em favor da literatura nacional? Nós, juntos, somos capazes de mudar o nosso mundo, e fazer com que isso se reflita em todos os lugares.

Vamos fazer um esforço?

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Danilo Barbosa é escritor, editor e agente. Autor de títulos como A Princesa Da Lapa e Contos Secretos e editor do Selo Eu Leio Brasil, ele carrega um vasto conhecimento sobre o mercado editorial acumulado através dos anos. Quer conhecê-lo melhor? Siga-o nas redes socias:

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