por Alice Maulaz

Mergulhando no mar das artes tradicionais, costumo dizer que a poesia é a beleza que só pode ser encontrada nas profundezas mais íntimas de um artista, jamais na superfície. Como leitor, não se pode ler um poema esperando a mensagem aparecer para você tão facilmente, para isso existem outras formas de escrita. Na verdade, descrever o que é poesia tanto para o autor quanto para um leitor já é extremamente difícil… mas, me arriscaria dizendo que a poesia é descrever a alma de um autor em versos, mesmo que cada leitor possua o costume de entender os versos de uma forma singular da mesma forma que nós, autores, criamos sentimentos diferentes com nossos próprios poemas, uma relação única bem descrita por Fernando Pessoa: “Ser poeta não é uma ambição minha. É a minha maneira de estar só”.

     Agora, como tradutora, entendo perfeitamente o quão desafiador possa ser traduzir um poema justamente pelo fato de que cada idioma possui sua própria estrutura e singularidade, o que torna a tradução literal uma opção não viável neste caso. Um tradutor precisa entender o contexto de cada verso e como aquela palavra está sendo expressada na língua fonte, ou seja, o idioma original do texto para depois sim, pensar em palavras e estruturas que possam expressar a mesma mensagem na língua-alvo.

       Traduzir não é nem de longe só reescrever coisas, principalmente quando falamos em poesia. Sempre que penso em uma tradução intrigante, gosto de citar a tradução feita por Baudelaire em 1953 do poema clássico de Edgar Allan Poe “O Corvo” para o Francês quando Baudelaire ainda estava aprendendo inglês e logo, vários erros foram encontrados na tradução feita pelo autor, mesmo esta versão ainda sendo uma das versões mais famosas de tradução para a língua francesa. Além disso, essa tradução ajudou na popularização de Poe na Europa, tendo seu nome lembrado e estudado até os dias de hoje no mundo todo.

       Um exemplo de tradutor Brasileiro de poesias renomado é Machado de Assis, tendo traduzido desde uma operata chamada “A ópera das janelas” até poesias e algumas obras de ficção, como explicado por Gabriela Jucá em um texto lido no seminário da Universidade Federal do Espírito Santo (FAPES). Machado possui poesias traduzidas em praticamente todos os seus livros de poesia, tendo excepcionalmente apenas um livro em versão definitiva que usava poemas 100 por cento de sua autoria nesta composição.

        Portanto, traduzir é sim também uma arte. Traduzir é possuir sensibilidade e conhecimento de diferentes mundos representados por dois idiomas ou mais.

         E traduzir poemas? Ah..traduzir poemas é desafiador, mas tão gratificante que no final, vemos a alma do autor de tantas formas que torna cada mergulho mais que inesquecível.

Sobre a autora:

Alice Maulaz

Alice Maulaz é escritora, professora, tradutora e wanderlust. Apaixonada por idiomas e viagens, escreve desde os 10 anos de idade sobre o seu próprio país das maravilhas.


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