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Por Elza Helena

Há um tempo, li um texto que ressaltava a criatividade do poeta Manuel Bandeira (1886-1968) em literalmente brincar com as palavras em seus poemas. Claro que o escritor vive mergulhado no universo das palavras, onde afloram suas ideias e surgem suas histórias, dando vida a sonhos, fantasias, suspenses… Cada um com seu estilo.

Particularmente, tenho uma forte tendência a escrever utilizando rimas em meus textos, costumo dizer que o jogo de palavras me fascina.

“Cotejos como esses foram me ensinando a conhecer os valores plásticos e musicais dos fonemas, me foram ensinando, por exemplo que uma dental ao invés de uma labial pode estragar todo o verso”, dizia Bandeira.

O dom de Manuel Bandeira em brincar com as palavras inventando ou dando a elas várias interpretações fazia com que o leitor viajasse na imaginação, de forma que o poeta utilizava o neologismo como um objeto lúdico em seus poemas.

“Beijo pouco, falo menos ainda/ mas invento palavras/Que traduzem a ternura mais funda/ E mais cotidiana/ Inventei, por exemplo, o verbo teadorar:/ Teadoro, Teodora”.

No seu maravilhoso reino das palavras, o poeta geralmente usava três palavras que na maioria das vezes não estavam relacionadas com o significado original e, sim, com seu estado de espírito.

Em seu poema “Desencanto”, por exemplo, a palavra “volúpia” se refere ao seu sofrimento: “Meu verso é sangue. Volúpia ardente”.

Tísico é um adjetivo usado para quem é tuberculoso, não é por menos que Bandeira incorporou a palavra em sua poesia com negatividade, desespero, tragédia sem perder o humor, afinal conviveu com a doença por longos anos:

“Não posso crer que se conceba/Do amor se não o físico!/O meu amante morreu bêbado,/ meu marido morreu tísico!”

Por último a palavra Sacha, que alegrava o poeta ao lembrar da bebê de um casal amigo, o qual gostava de brincar. Para ela compôs “Sacha e o Poeta” e mais tarde continuou a brincar com a palavra em “Mafuá do Malungo”:

“Sacha Muchacha/ Nariz de bolacha…/ Meu estro não acha/ outra rima em sacha./ Por isso se agacha,/ Se cobre de graxa. / Se amarra, se racha./ Se desatarracha/ E pede em voz baixa/ desculpas a Sacha”.

Manuel Bandeira relacionou suas experiências com o verbo, de forma que o brincar com as palavras transmitiu muito bem todos os seus sentimentos melhor que qualquer outro para a sua época.

Que possamos fazer das palavras nossas aliadas (faladas ou escritas) e que brincar com elas seja um ato de sabedoria, afinal segundo Bandeira “Em literatura a poesia está nas palavras…”

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Elza Helena nasceu em Recife/PE. É professora, psicopedagoga e autora de histórias infantis, sendo apaixonada por esse universo encantador em que fluem imaginação e criatividade. Desde 2018 participa de antologias de contos e poesias para crianças.