bastidores

Acho que a coluna desta semana eu vou dando uma de José Simão e colocando logo um “Buemba! Buemba!”, pois sei que o papo dessa semana dividirá opiniões.

Mas o do que vai falar, Danilo?

Em épocas de Copa do Mundo, fico analisando as redes sociais. Vejo o pessoal vestindo a camisa, falando de jogos, torcendo, mostrando o orgulho de carregar o Brasil no peito. E pego a me pensar no nosso dia a dia o quanto isso acontece… Em todos os segmentos. E, principalmente, na nossa literatura. É claro que em comparação ao mercado internacional editorial, principalmente o americano, estamos engatinhando e temos muito a aprender. Mas será que estamos deixando escapar algo?

Nos EUA, o mercado preza aquilo que é criado lá. Autores estudam, praticam, fazem cursos antes de escrever. As plataformas digitais seguem de estante virtual para os autores iniciantes, além dos clubes de livro, que lá são muito respeitados. Mais de 70% do que eles leem é produzido por lá – tudo bem que isso também acontece conosco… A maioria do que lemos vem de lá. O mercado de entretenimento – cinema, teatro e televisão – ficam de olho nos livros e logo adquirem os seus direitos.

Porque isso não acontece aqui?

Grande parte por nossa culpa. Em todas as vertentes, em todos os braços do mercado, acabamos por segregar a literatura brasileira. Sinto as vezes que temos essa síndrome de vira-latas, onde achamos que o que vem de fora é melhor. E ao contrário – é essa miscigenação, essa diferença, esse toquezinho de pimenta, dendê e curcuma que nos deixam tão mais… saborosos aos olhos e ao paladar.  Pena que não colocamos em prática.

Mas nos, autores, sofremos com isso… É isso que muitos vão alegar.

Mas aí vem a pergunta: o quanto desse estrangeirismo que invade a literatura nacional tem o nosso dedinho gordo e preguiçoso?

Ao ver as plataformas digitais, as vezes me canso de ver que seguimos as mesmas fórmulas dos livros internacionais. Deixamos a criatividade que pulsa ao nosso redor, aquela vinda do nosso dia a dia e criamos obras inspiradas em livros americanos, suecos, franceses e por aí vai… Insistimos em criar mulheres altas, louras e longuíneas, caminhando por Nova York, Paris e França. Casais que moram em Washington ou Toronto, vários Greys de nacionalidades diferentes. Agora me diz, se o autor nunca viveu na Itália, para que a necessidade de escrever um casal chamando Domenico e Francesca e passar toda a trama em Nápoles? Porque não uma Marta que mora em Barretos, Goiânia ou Muzambinho? Porque não um Alexandre que trabalha em São Paulo, Paulinia, Itaú de Minas ou Ceilândia? Posso colocar um publicitário, um gerente de bancos, um faxineiro, ou até mesmo um camelô? Gente como a gente não nos permite sonhar ou desejar um pouco mais? Será que a viagem dentro de ambientes que vivemos e nos identificamos é pior?

Não digo que escrever livros que se passam lá fora são errados, pois toda boa história deve ser contada. O que erramos é ver que nós, escritores brasileiros, vemos muitas vezes como errado escrevermos um livro que se passa no Brasil, com gente como a gente. Nós temos uma cultura rica não explorada para mostrar a todo o mercado, e hesitamos nisso. Os autores americanos fazem sucesso em todo o mundo porque falam sobre um mundo que eles conhecem, vivem e se identificam… Por isso tem propriedade para escrever. E os grandes nomes que temos aqui, em nosso país, só estão em editoras grandes, como muitos outros sonham, com obras traduzidas em todo o mundo, pois fizeram exatamente isso… A maioria falou sobre o mundo em que vivem, representando o seu país com letras verdes e amarelas. Não digo só dos nomes mais clássicos, como Jorge Amado e nosso querido Machado, que agora é febre mundial. Mas nomes como Nana Pavoulih, Sue Hecker, Tatiana Amaral, Maurício Gomyde, Raphael Montes… Tramas tão diferentes, com pessoas tão distintas, mas vindas desse mesmo país imenso e multifacetado chamado Brasil.

Então, meus caros autores em questão, me digam uma coisa: porque uma editora grande compraria um livro brasileiro se passando em Madrid, Nova Iorque ou Sidney, se ele pode comprar de um autor de lá? Que, inclusive, vem com os números de prestígio dos próprios autores do lugar, confirmando a veracidade e entrosamento da obra com o público? Porque não conquistar leitores com o mundo que os rodeia, com situações em que eles podem se identificar ou lugares que já conhecem? Porque utilizar a literatura para segregar e não unir, colocando a morena, a negra, a ruiva, a gorda, a magrela… E deixe ela amar quem quiser! O que importa se, em vez do CEO, for o gerente do shopping? Para criarmos um mercado diferente, temos de fazer diferente… Mostrar não apenas ao leitor, mas a editora o nosso potencial. E utilizar o famoso “jeitinho brasileiro” para criar coisas maravilhosas, que possam agradar os leitores daqui – e porque não? – do mundo inteiro.

Espero que tenham gostado dessa postagem. Quem sabe, juntos, não podemos fazer a mudança?

danilo