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Uma literatura que trata de desejos e dos prazeres femininos. Reivindicando a mulher dona de si, de seu corpo e de próprio querer. Podíamos estar falando de alguns exemplos de literatura erótica atual, mas não estamos. Pra quem acha que literatura erótica é coisa sem conteúdo e despudorada de hoje em dia, está muito enganado. Muito antes dos textões de Facebook, algumas escritoras escandalizaram sua época mostrando uma literatura intensa e erótica. Dando um exemplo de pioneirismo e feminismo, muito além do papel imposto às mulheres através dos tempos.
Se nas últimas semanas aqui em nossa estante multicolorida, falamos sobre vários aspectos da importância da representatividade e da diversidade, mostrando como o mercado atual está atento também a essas questões. Hoje, vamos sair um pouco do contemporâneo e fazer um panorama mais histórico. Nossa estante ganha hoje uma prateleira pra lá de especial, com várias escritoras pioneiras e que fizeram história na contramão do papel destinado à elas. Para mostrar o valor da literatura que empodera nossas mulheres e mostra que elas são donas de si, separamos um lista pra lá de quente de escritoras que falavam dos desejos femininos muito antes da febre de “50 tons”.

Hilda Hist

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Não dava pra começar essa lista senão com a maior e mais reconhecida escritora erótica brasileira. Redescoberta nos últimos anos, a obra da paulista, que produziu por grande parte do século XX, foi reeditada por grandes editoras conquistando novas gerações. A poesia intensa de Hilda toca em vários temas tabus como a morte, o sexo e Deus. Ler sua poesia é entrar em contato com a dinâmica da existência humana, com a complexidade da nossa vida e do próprio texto, numa combinação poética de sons, palavras e imagens. Deixou uma obra extensa entre poesia, ficção, teatro sendo traduzida para várias línguas mundo a fora.

Gilka Machado

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Considerada pioneira na literatura erótica brasileira, Gilka Machado escandalizou a sociedade do início do século XX com sua literatura altamente sensual. A escritora fez parte do movimento simbolista e lançou seu primeiro título aos 22 anos: “Cristais partidos”. Na política, foi ativista pelo voto da mulher e uma das fundadoras do primeiro partido político feminino, em 1910. Foi definida pelo poeta Carlos Drummond de Andrade como “a primeira mulher nua da poesia brasileira.” É autora das obras Mulher Nua (1922); O Grande Amor (1928); Meu Glorioso Pecado (1918) e Carne e Alma (1931), todos livros de poesias eróticas que mostram uma mulher que deseja e é desejada.

Albertina Bertha
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Albertina viveu a passagem do século XIX ao XX e brilhou junto de outras escritoras de sua época e que foram esquecidas pelo tempo (e pelo machismo). Reconhecida em seu momento histórico, foi exaltada pelo crítica em livros que misturavam o realismo e uma escrita mais social a um aspecto mais introspectivo. Seus livros debatiam questões morais, direitos humanos, o lugar da mulher na sociedade, debates sobre as diferentes etnias brasileiras, além de questões de ordem políticas. A literatura de Albertina causou rebuliço pelo teor erótico, traições, escancarando as hipocrisias de sua época, com protagonistas que priorizavam seus desejos. A obra de Albertina Bertha é composta por cinco volumes: Exaltação (romance, 1916), Estudos 1ª série (ensaio, 1920), Voleta (romance, 1926), E ela brincou com a vida (romance, 1938) e Estudos 2ª série (ensaio, 1948).

Cassandra Rios
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Uma grande best-seller brasileiras esquecida pelo tempo, Cassandra Rios foi a primeira escritora brasileira a ultrapassar a marca de um milhão de livros vendidos. Sua produção se deu no auge da ditadura civil militar, sendo alvo de constantes censurar do parte do governo. O sucesso popular da autora de “O prazer de pecar”, “Tessa, a gata”, “Carne em delírio” e “A aranoica” não garantiu o mesmo reconhecimento no meio literário, sendo tachada de obscena e escrita sem qualidade. Parece outra época também né? “A volúpia do pecado” foi publicado quando ela tinha 16 anos, sendo a primeira obra brasileira com personagens lésbicas, lançada em plenos anos 1940. Da década de 80, com a redemocratização, Cassandra viveu o auge de sua carreira quando vendia 300 mil exemplares de cada novo livro. Sua produção literária de Cassandra Rios foi extensa: em uma vida de setenta anos, publicou 36 livros.

Olga Savary
Olga Savary

Contemporânea de Hilda Hist, conviveu com a poetiza no mesmo círculo social. Lançou “Magma” em 1982, formado apenas de poesias eróticas. Trabalhou como escritora, tradutora e jornalista. Começou a escrever ainda na infância, tendo lançado sua primeira obra aos 37 anos, intitulada “Espelho Provisório”. Já em sua estreia chegou lacrando, ganhando o Prêmio Jabuti de Autor Revelação de 1971. Esse foi só o primeiro dos mais de 40 prêmios literários nacionais e internacionais que ganharia. Olga publicou 16 livros de poesia e ficção próprios e participa de mais de 900 antologias como autora convidada ou organizadora. Além disso, foi ela que organizou primeira antologia de poesia erótica brasileira, em 1984.

Adélia Prado
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Adélia Prado, escritora mineira que surgiu no cenário da literatura brasileira no início dos anos 70. Apesar de sua escrita não ser marcada tão fortemente pela questão erótica, Adélia Prado abordou em suas obras os desejos femininos. Falando de mulheres fortes. Católica, a autora expos as contradições entre a mulher dividida entre igreja, as funções domésticas e sua própria sexualidade, diante do dilema entre prazer e culpa. As mulheres de Adélia lidam à beira de uma crise existencial, revelando a dificuldade imposta pelo machismo no cotidiano feminino. Adélia possuí uma extensa produção entre poesia, prosa e contos.

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Leonardo Antan é graduado em História da Arte, folião e escritor. Autor de romances jovens que abordam a diversidade e os conflitos contemporâneos. Para saber mais acesse sua página de autor: https://www.facebook.com/leo.antan