conversa

Autores são uma coisa bem doida, e não me safo dessa… Passamos meses escrevendo um livro, mergulhamos na história, sofremos e deixamos de fazer as mais variadas coisas, seguindo as vozes na nossa cabeça… Criamos diálogos incríveis, realizamos nossos sonhos e pesadelos através da escrita até o final chegar… E vir a tão adiada hora de escrever a sinopse.

Tirando alguns raros casos que conheço no meio literário, que gostam de fazer isso, quando esse instante surge, o autor parece o conde Drácula quando vê um crucifixo ou um patê de alho. Se descabela, recua, arrepia, guincha que bicho que ficou escaldado e só não sai correndo porque não pode… Afinal, como resumir toda a história que faz parte de você em apenas alguns parágrafos?

Como deixar aquelas poucas palavras tão interessantes que o leitor queira a sua história? No papel de agente e editor, eu recebo muitas sinopses. Algumas legais, que dão vontade de ler a obra naquele mesmo instante, outras que me dão tanto sono que nem chego a terminar. Em uma editora grande, por exemplo, se você não conquistar o editor / avaliador por essas benditas palavras, eles não abrirão o seu original para olhar sequer a primeira página (a não ser que você seja alguém famoso e com milhares de curtidas em redes sociais… Esses, normalmente, são procurados por essas casas editoriais sem precisar fazer nada) #VidaReal, baby.

Portanto, pela minha experiência, vou deixar aqui algumas dicas básicas do que pode funcionar para que você estruture de uma fórmula melhor a bendita sinopse, ok? Lembrem-se que tentarei colocar coisas de minha livre expressão e vivência, e posso não agradar a todos. Faz parte…

  1. Crie amor a primeira vista e se despeça deixando saudade.

A primeira frase da sinopse deve grudar o seu leitor pela garganta. Você pode pegar o  principal questionamento da trama e jogar, logo de cara. Testar os limites do leitor e fazer com que ele se identifique com a história, como parte dela. Se não pensar em algo do tipo, mostre um diferencial do livro, algo que tenha conquistado com ele, ou alguma crítica de alguém que o seu público conhece. Explore aquilo que o torna diferente, faça a própria marca.

E no final, não pode ser diferente. Depois de compartilhar com ele as informações que precisa, deixe-o na vontade, se despeça dando aquele gostinho de quero mais. Deixe-o tão curioso que ele tenha vontade de ler, degustar a sua obra, devorar você.

  1. Faça o leitor ser o seu crush

Assim como você se apresenta para as pessoas ou nos aplicativos de relacionamento, assim deve ser a sua sinopse. É um flerte, uma dança onde você tem de seduzir o leitor com todas as coisas que o seu livro tem. Portanto, faça com uma linguagem simples e convidativa, sem muitos artifícios linguisticos para não parecer pomposo demais. Após o impacto da primeira impressão, conte um pouco sobre quem são seus personagens, com características que quem ler o livro vai se identificar. É quase como se o seu protagonista pudesse ser o vizinho, o namorado, o cara que cumprimentamos todos os dias. Alguém crível, que gere empatia. Mostra que o cara trabalha em uma livraria, ou toca música, ou é advogado. Que aquela moça tem o dedo podre para namorados, ou está fazendo a faculdade que sempre quis… Para logo em seguida jogar o dilema na roda, causando o frisson novamente. Uma sinopse é assim, você se joga e se retrai, atraindo os olhos do leitor sobre a obra, tirando da zona da mesmice, do comum. Por que jogar apenas que o cara se apaixonou pelo colega da escola, se posso antes te apresentá-lo, falar que ele é tímido, que namora a amiga de infância, e a moça é uma das mais bonitas da escola. Fazer o leitor se visualizar e interagir com a situação como se fosse dele. É a partir da sinopse que vem a primeira empatia com a obra.

  1. Seja incomum, mas não prolixo

Não se limite, faça diferente. Pega características que acha possíveis diferenciais e coloca na sinopse – MAS CUIDADO COM OS SPOILERS! Nunca mostre demais. Jogue todo o drama, mas sem mostrar resultados, entende? Sinopses gigantes, que ocupam toda a página, cansam, entediam. Já vi gente fazendo poesia de sinopse, por exemplo. Outras, com frases imperativas e imediatistas. Algumas cheias de indagações, para gerar reações adversas em que a lê. E quais foram válidas? As três, já que todas, de uma forma ou de outra, atingiram o público-alvo esperado pelo autor, resultando em interesse pela obra. Pegue algumas sinopses que acha legal e se inspire, crie a sua própria versão. Prometo que não vai se arrepender.

  1. Aqui o autor é o coadjuvante

A não ser que você seja um daqueles escritores que seu nome, na capa, está maior que o título do livro – se for, obrigado pela honra de ler a minha coluna – não precisa se pavonear na sinopse. Mencionar o próprio nome de forma discreta, alguns títulos seus que são conhecidas, ou se é obra de estreia. Temos a biografia do autor, lá na orelha do livro, para que os interessados descubram mais sobre você. O foco da sinopse é o livro, não quem o criou.

  1. Tudo é questão de fórmula

Se em algum momento você esquecer de todas essas coisas que eu falei, você te ensinar uma fórmulazinha para não esquecer, ok?

Sinopse= +I-A+G-D

Sendo, I a INTRODUÇÃO, o começo da história, a que vai causar amor a primeira vista; A será a APRESENTAÇÃO, o básico de cada personagem para atrair e criar empatia; logo em seguida vem o G, o GANCHO, o momento crucial que vai decidir toda a trama e deixar o leitor com gostinho de quero mais; e, por fim, o D, o DESFECHO, a despedida da sinopse e o convite para que conheçam a história completa. Os símbolos antes de cada letra (+) e (-) determinam a importância de cada trecho, onde você deve impactar o leitor por um lado e suavizar de outro, criando um texto com movimento, fluído, capaz de oferecer o que necessita, sem se perder.

 

Espero ter conseguido me explicar e tirado da cabeça de vocês que a sinopse é um monstro, gigantesco e com mil cabeças dispostas a te devorar. Ansioso para ver como apresentarão suas obras a partir de agora.

Se tiverem alguma dúvida, ou precisarem de mais dicas, é só chamar. Mande um e-mail para a gente, vamos trocar figurinhas não apenas sobre os bastidores da produção de um livro, mas do mercado editorial. Vou adorar conversar com vocês.

Um grande abraço,

Danilo Barbosa

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