bio Eu leio Brasil - Alice

Por Alice Maulaz

Antes de sermos escritores, somos todos eternos leitores. Não existe a possibilidade de criarmos nosso mundo singular sem antes participarmos da realidade ou imaginação que estão disponíveis para todos em bibliotecas e sebos (ou até mesmo no nosso criado mudo)! Observar transições entre o que é, o que poderia ser e o que jamais seria real – devo confessar – torna nosso trabalho bastante divertido: sabendo disso, não poderia falar de múltiplas faces literárias sem falar de Mário Quintana.

Intriga-me, em especial, como ele consegue pertencer às tantas formas e ao mesmo tempo flutuar de uma maneira tão singular, capaz de transcender barreiras com reflexões sobre diversos temas sem, claro, perder o temperamento jovem-observador de autor que comenta o prático e o cotidiano, conforme bem descrito no prefácio de Braulio Tavares em  “Caderno H”.

Falando mais especificamente dessa obra, “Caderno H” é um dos livros que mais gosto de manter por perto: seja para uma atividade antes de dormir, uma leitura no metrô ou um simples momento solo – já que tomar doses homeopáticas de literatura pode ser um tesouro diário em um mundo onde tempo é dinheiro. Quintana simplesmente pode escrever sobre tudo e também sobre nada. Um tanto paradoxal, não acha? Talvez sim, talvez não. Vai depender de que tipo de leitor você tenta se encaixar: aquele que procura um sentido em toda leitura, ou então aquele que se deixa guiar pela leitura e, depois, reflete se existe um sentido presente ou não naquele texto.

A forma de fazer literatura de Quintana é justamente não ter uma forma pré-definida, portanto nada parecida com essas poesias parnasianas que admiramos pela sua forma. Estamos falando de uma escrita resiliente, capaz de pertencer às experiências múltiplas que a imaginação pode nos proporcionar. Particularmente, gosto do modo de como a imaginação é comentada na obra “A memória que enlouqueceu”.

Quantas coisas são possíveis a partir da imaginação? Toda realidade um dia já foi sonho, mas nem todo sonho vira realidade, e é por gostar destes questionamentos que mantenho “Caderno H” comigo! Afinal, sou deste tipo de leitora que gosta um pouco de tudo sem forma, sendo essa festa de possibilidades uma chuva de luz própria – tanto nas nossas vidas quanto na literatura!

E convenhamos: em um país de tantos altos e baixos como o Brasil, a literatura é realmente uma chuva de luz própria em meio ao caos!

 

Alice Maulaz é escritora, professora, tradutora e wanderlust. Apaixonada por idiomas e viagens, escreve desde os 10 anos de idade sobre o seu próprio país das maravilhas.