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Ao descer da moto eu tracei um caminho. Deveria maquiar meu rosto, perfumar meu pescoço e vencer a hesitação de reaparecer na roda de samba no boteco. Cheguei procurando as amigas e os amigos, uma cadeira e doses de palavras dispersas, cumprimentos festivos e trocas de sorrisos. As horas foram passando com a rapidez de uma raposa.

Tudo parecia encaixado.

Até que você desceu a ladeira, ligeiro. Nos seus lábios eu li convites, mas a memória me pedia para recusá-los. Com sorriso estrangeiro, filho da terra do fogo, seu beijo tinha gosto de vinho e seu olhar parecia o de um peixe morto. Não é frequente descrever assim um grande amor. Talvez o mais intenso, o mais perturbador. Eu só queria ouvir um sambinha maneiro… Ah, conversa! Quem eu quero enganar? Eu só queria sentir o cheiro da sua pele e sentir o quanto parecíamos perfeitamente entrosados. Era um caso de amor em surdina, não é? Fazíamos “coisas de casal”, não é? Será que você encontrará esse amontoado de letras brasileiras? Pois bem, eu sempre amei você.

Porém, a gente não combinava nos traquejos, anseios, medos. Até nossos gostos musicais se debatiam silenciosamente. O único som que trocávamos provinha de sussurros e vogais sem fôlego. Que pena. Separados nós sempre fomos tão grandes. Mas, fomos bordados com linhas diferentes. Por mãos diferentes. Somos obras artísticas de movimentos divergentes. Eu acreditei ser outra pessoa. Pelo fato de ter atravessado a ponte do tempo, da distância, da saudade, sem derramar mais que um terço de prosas. Por tardes inteiras depenei palavras e queimei pessoas em papéis solitários. Observei as luzes e as sombras nos muros, postes e placas de madeiras. E, por toda a cidade, tentei me desvencilhar do que eu não queria mais ser. Busquei distração nas marcações de trânsito, nos alinhamentos dos telhados, nas compotas coloridas do mercadão, na liberdade dos urubus. Tentei esquecer seu idioma, depois de tanto desejar aprendê-lo. Tentei esquecer o calor do seu corpo, depois de tanto consumi-lo. Quando eu tinha novos planos houve uma explosão. Uma imensa conversão de cores em lágrimas. Minhas amáveis teorias tropeçaram em você e no seu pouco querer. Na brincadeira de despetalar uma margarida, eu perdi. Você disse que não me amava. Repetidas vezes você disse que jamais me amaria. Com vozes, com gestos, com silêncios.

“… Por que eu vim pra esse samba? Deveria ter ficado em casa, quietinha. Não era ele que eu queria ver? Será que essa noite vai terminar como antigamente? Nós dois juntos, tentando nos entender em portunhol, marcando nossos corpos com o melhor e o pior de cada um. Será que ele pensou que eu nunca mais voltaria? Não deveria. Maldita quarta-feira…”. Minha cabeça estava fervilhando. Malditas memórias.

Descendo a ladeira. Andando como quem precisa contar uma notícia interessante ao mundo todo. A língua banhada em fel. Lembrei-me do quanto tentamos dançar. Saí de fininho pela noite escura como eu. Voltei para mim casa. “Você sabia que eu tenho retratos seus por aqui, bendito?” Seria uma espécie de riqueza esse amor render livros inteiros? Resgate cármico com vantagens literárias? Fragilidade? Burrice? Inutilidade? Eu era tão grande antes de você. Você parecia ser tão grande antes de mim. A atração e a amizade foram diminuindo. Eu criei em você uma visão do paraíso. Depositei em você toda minha euforia e vontade de viver. Você não suportou minha linguagem afoita, meu corpo pedinte, minha fácil aceitação para seus convites nos finais dos sambas. Fui muito para você. Deve ser por isso, que você se reergueu em poucos dias e eu precisei de cinco anos. Empurrei o que morava entre nós dois, que não tinha mais nome nem abrigo, e joguei em um precipício. Fica para próxima vida, quem sabe?

2 de Abril de 2015

Flor, Priscila

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