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Observe as ruas, os objetos, as pessoas, as roupas. Observe a fumaça dos carros. Os vapores das leiteiras, cafeteiras, bules e tachos. O ato de varrer uma calçada. Observe os gatos, os pássaros, os latidos dos cães. Observe as folhas na sarjeta, as grades das janelas e portas, as telhas de barro e de amianto. Olhe para o céu sem medo do Sol. Olhe para o céu quando a Lua estiver enorme, posando sensualmente aos poetas. No entanto, também olhe para o céu noturno quando for Lua Nova. Afinal, há tantas estrelas e… Há tanto o que ver, não é?
Você quer escrever melhor? Aprenda a ler o mundo.
Não falo somente em ler jornais, revistas, folhetins de supermercado, essas coisas sempre coloridas e controversas. Eu falo também, em ler as placas de trânsito, convites de inauguração de alguma loja (sorveteria, perfumaria, hamburgueria, ia, ia ia…) e não ter vergonha de ficar um ou dois minutos lendo um outdoor. Sabe os rótulos de shampoo?
Vou repetir a primeira pergunta: há tanto o que ver, não é?
Se há tanto o que ver, há muito para se contar. E contando a gente descreve e reinventa o mundo. Tente vestir o olhar de alguém. Tente imaginar como o vidro é feito. Escreva como você acha que o vidro é feito. E só depois disso, vá descobrir como o vidro é feito. Observe o espelho do banheiro descascando aos poucos. Atente-se aos pisos de caquinhos, ao forro de pcv e suas dezenas de encaixes e listras, veias e caminhos retos ou não tão retos assim. Seja curioso. E ousado. E, de vez em quando, impertinente. É, chegue mais perto das frutas e verduras na feira, quase encoste seu nariz nelas. Deixe os cheiros invadirem você. Imagine descrever o cheiro de uma abobrinha refogada que a vovó de um personagem costumava fazer aos domingos antes, é claro, de morrer aos cento e poucos anos. Pense nos cheiros. Pense no tato. Queira escrever melhor, ou seja, queira sentir o mundo inteiramente. Não queira ser uma daquelas pessoas que nunca guardaram a embalagem de sabonete na gaveta de meias. Esse tipo de coisa é tão gostosa de escrever.
Entenda que, se você quer escrever melhor, em forma e sentido (entre tantos outros termos e conceitos que vão surgindo ao longo do tempo), precisa aprender a observar as pequenas, médias e grandes ações cotidianas.
Cotidianas para você e para os outros.

 

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