016

Dedicado à Agrício Costa

Seus olhos. Grandes. Sinceros. De um calor que por vezes se esconde. Por vezes, se mostra. Os dedos tomam conta da xícara. Açúcar. Um cumprimento a quem passa. Mais açúcar. Mexe. O que trouxe nossos corpos efêmeros até ali? Um doce encontro. Feira matinal num domingo. Antes ainda, um ônibus perdido. A conversa vai nascendo, fluindo. As dúvidas, claro, são minhas.

Amizade é um bicho estranho. Juramos que não existe, mas lá está ela, habitando um simples (e delicioso!) café. Disseram-me um dia que conselho deveria ser vendido. Seria a maneira de garantir sua boa qualidade. Contudo, meias-verdades e inteiras verdades são ditas em simples conselhos. Brincadeiras. Canções. Prosas. Quadros. Encaixam-se no rol de mensagens necessárias. Seja de dia ou de noite. Seja no Hemisfério Norte ou Hemisfério Sul. O cotidiano carrega nas costas o fardo de preencher ou esvaziar o lixo das nossas mentes. É sempre do amanhã o dever de curar-nos do ontem. Eu acreditava. Que mentira bem vestida. Rebatida com o olhar do outro, olhar amigo, seguido de um conselho. Sabedoria nascida do olhar do outro sobre nós. Do olhar do outro sobre o que o nosso olhar transparece. Será que minha cara lavada da manhã de domingo deixou vazar minha pouca vontade de viver? De lidar com gente que desagrada? Mágoas antigas. Seja como for, ele compreendeu. Naquele momento ele enxergou que eu estava perdida.

Em poucos minutos de prosa, longas dúvidas e sonhos foram trocados, sentimentos foram descritos. Uma amizade libertária cultiva-se com palavras necessárias e carinho. Ouvi conselhos para serem guardados em uma caixinha florida. Daquelas caixinhas em que se guardam cartões postais, cartas de paixonites agudas da sétima série, fotografias antigas. O tipo de caixa que nunca se joga fora. O tipo de amizade que nunca jogarei fora.

Obrigada.

28953899_360873007743631_7636899726587806711_o