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Voltando pra casa. Devolvida ao lar, na verdade. Ruas lotadas de zumbis e de gente comum. Bondosos e suados. Mendigos e executivos. Vendedores de picolé. Ilusões engarrafadas. Direção controlada. Em todas as direções, adestrada, por mais que eu tente o charme em deslocar-me. Difícil destacar a brecada mais forte. Mais pornograficamente frenética. Algumas poucas e roucas carícias trocadas com a fala falha. Muitos conselhos e prismas diferentes. Nossas visões. Estávamos conversando, o motorista e eu. Seu nome e sobrenome ecoavam como berro de cabra. O mundo, as pessoas, os sentimentos sob a sua ótica são controversas e, às vezes, desonestas. O motorista raramente se mostrava delicado como um doce português.

Além de mim, quem mais se cansa de amar descontroladamente um andarilho? É como uma taça de vinho grego no inferno. Sabe quando tudo parece ser interessante? (Risos) Se de repente tudo parece distante, a gente inventa. Um passo de sapateado, um poema, um amor, uma viagem… Só para fazer o drama, o charme. A graça real é de ser otário com uma coroa de cacos de vidro, logo, muito rapidamente – tão rápido, que apenas uma vida muito vazia e incolor consegue registrar – substituída por uma imensa coroa de flores. Afinal, fui ao funeral e o morto me trazia de volta para casa. Aguardamos o fim. Aquele fim que é sempre um novo começo. E sobre a parte que desconheço, prefiro me calar.

Voltando pra casa… Olhares ao horizonte, ao céu, ao alaranjado de uma tarde fugaz. Olhares aos pedestres, atenção aos pensamentos soltos e vadios. Uma apatia incomum na cidade. Em nós. Senti uma lágrima de nostalgia. Tínhamos dividido alguns suores. Odores. Dores. Exceto amores. Uma “amizade” multifacetada. Calado ou conversando com o olhar… Com as covinhas. Com o sorriso. E as raras palavras que liberam frases desconexas. Tão íntimas. Eu conheço cada vírgula delas. O motorista solta uma frase insana. Insinua outras danças. Outros movimentos deliberados. Recuso.

Parabéns!

Você já era rotina. Um péssimo hábito. Descompromisso. Atraso. Tempo perdido. Descrevi seus tropeços desde os primeiros dias. Descrevi sua boca e a tatuagem de aranha no ombro. Anotei suas mentiras em forma de verso. Fiz dos versos um mantra. Há muitos sentimentos abandonados em mim, assim como há muitos livros entulhados na minha casa. O carro para na frente do meu abrigo. Olhei para você com a certeza de que nos veríamos novamente apenas a próxima vida. Na verdade, olhei para você como quem deseja fundir os corpos eternamente, mas que só pode abraçar e dizer “adeus”. Assim, uma lembrança fúnebre se teceu. Quem não conhece esse instante desconcertante?

Belíssima coroa de flores você escolheu.

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