Ser mulher e negra é minha essência, e não minha sentença
Femafro – Portugual.

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Em 2014, quando recebi o e-mail da Amazon avisando sobre o pagamento dos meus primeiros royalts como escritora, meu coração transbordou de emoção! Pensei:
“A menina negra, de família humilde e que cresceu no morro, é escritora, sim!”
Escrevo desde os doze anos, mas somente aos trinta anos, após o nascimento do meu filho, comecei a acreditar no sonho de me tornar uma escritora. E, ainda assim, era um sonho longínquo, quase inacessível. Uma utopia.
Como eu, uma garota negra, pobre, nascida e criada em uma comunidade carente, que estudou em escola pública, poderia sequer pensar em partilhar a mesma profissão de Raquel de Queiróz, Zélia Gattai ou Clarice Lispector?
Era algo impensável, quase um sacrilégio…
Mas, em 2011, o sonho falou mais alto. Na verdade, ele gritou dentro de mim.
Ousei, me arrisquei e encarei o desafio de frente.
Ainda em 2011, escrevi meu primeiro personagem negro. Mas era um conto curtinho, e não consegui espaço para abordar o preconceito, e isso me incomodou.
Em 2014, a vida me deu a personagem Eva Martins de presente.
Uma personagem mulher, negra, nascida em uma comunidade carente, que ousou desafiar as estatísticas sociais e conseguiu (com sangue, suor e lágrimas), conquistar um lugar onde os negros não são bem-vindos: a música clássica.
Com a violoncelista Eva Martins, me propus a abordar o racismo em sua forma mais vil e cortante: velado.
Disfarçado de inclusão e aceitação, o “preconceito nosso de cada dia”, fere em uma profundidade visceral.
Hoje, percebo que inconscientemente levei Eva a experimentar algumas das situações que eu mesma ou pessoas muitos próximas a mim viveram.
Ser mulher e negra é minha essência e essa essência está em cada palavra, frase ou parágrafo.
Como escritora negra, desejo é criar personagens multiétnicos e mostrar muito mais que a cor da pele ou descrever os traços de sua etnia.
Desejo falar de essência, sonhos, talento, amor…
Lugar de preto é a posição que ele conquistar!
Coisa de preto é tudo o que fazemos com o coração.
A minha coisa de preto é escrever sobre o amor, e a sua?

Beijos,
Nina Reis