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Por que choramos ao ler algo?

por Marlos Quintanilha

Há quem chore de alegria, de tristeza, de dor, de medo, de nervoso, de raiva, de muitos e particulares motivos. Chorar nada mais é do que sentir. Expressar o sentimento que está dentro do coração. Mostrar ao mundo cada um dos motivos citados acima através das lágrimas. Marlos, qual o motivo de falar de choro numa coluna sobre literatura? Simples: minha experiência ao escrever uma história. Em 2018 fui convidado por um amigo para participar de uma antologia (Leia a coluna de Erik Thomazi “Antologias x Originais: desafios de publicação”). Não fazia ideia do quanto esse convite mudaria a minha vida, dentro e fora da literatura. O projeto chama-se Vivendo na terra do nunca, idealizado e organizado pela autora Vanessa Nunes e publicado pela Editora Rico na Bienal do Livro em São Paulo. Voltando ao convite, foram semanas, talvez meses de procrastinação. Como bom brasileiro que sou, deixei para escrever no último dia. Com o prazo esganado, sentei no chão da sala da minha casa numa tarde de outono e comecei a história. Olhei para a estante e vi uma foto minha com o meu irmão, já falecido. Tive um estalo sobre a história. Contaria uma parte da minha vida inspirada na Terra do nunca. E mergulhei. Fui fundo nas minhas lembranças. Dei braçadas espaçadas no mar dos meus sentimentos. Escrevi o conto completo em mais ou menos uma hora. Foi tanta adrenalina que não consegui derramar uma lágrima.
Finalizei numa revisão ortográfica rápida e enviei para a Vanessa. Daí em diante cada feedback era acompanhado de relatos emocionados de como a história tocava os leitores. E eu então fui lê-la como leitor. Não era o autor que estava diante da história. Era o leitor de coração aberto. Li cada frase como se não conhecesse aquela história tão íntima. Explodi numa choro pesado e compulsivo. Era como se eu tivesse revivendo cada segundo daquela história. E realmente, descobri que aquela história fazia chorar.

Depois disso ficou a pergunta na minha cabeça: por que choramos ao ler algo?

Primeiramente, somos humanos, dotados de sentimentos que borbulham dentro de nós, às vezes entalados pela rotina dura ou mesmo pela obrigação de sermos os super heróis do dia a dia. A mãe resistente que precisa dar conta de casa, comida, roupa, filhos, profissão. O pai durão que precisa ser forte para corrigir o filho, trabalhar, ajudar nas tarefas domésticas. O filho que estuda, corre para o cursinho, ajuda em casa e tenta ter uma vida social aceitável. Tudo isso corrobora para quê nossos sentimentos sejam cada vez mais reprimidos.
Por conseguinte, é nos livros que a vida real fica de lado (ou não) e podemos mergulhar na fantasia (às vezes nossa realidade). Por mais forte que sejamos diante das pessoas, diante da literatura vislumbramos nossas próprias histórias refletidas nas páginas. E é ali que soltamos aquela gargalhada já desconhecida. Muitas lágrimas descem sobre as páginas (ou telas eletrônicas) ao se identificar com personagens que têm nossas características e vivenciam situações semelhantes à nossa.
Ler é abrir as janelas do coração e deixar ser conduzido num mar desconhecido. Ali você poderá sorrir, chorar, se frustrar, ser surpreendido, questionar coisas e pessoas, viajar para muitos lugares inimagináveis e sem dúvidas, você não voltará da maneira que embarcou. Finalizando, respondendo a pergunta, choramos porque quem escreveu a história compartilhou algo que estava no seu âmago. Um mundo tão seu que não coube mais dentro de si e viu a necessidade de abrir as portas para outras pessoas. São registros inspirados em vivências, experiências compartilhadas, fragmentos reais de algo vivido direta ou indiretamente. Ainda que toda essa realidade seja transformada em literatura pelas lentes da fantasia, terror, romance, hot, ou tantos outros gêneros.
Ao escrever “A criança que nunca cresceu” eu coloquei toda a minha emoção no texto. Quis transmitir ao leitor o quanto foram importantes e maravilhosos todos os anos que passei ao lado do meu irmão. Imprimi em cada diálogo o desejo de eternizar cada momento. Por isso chorei. Pois meu coração ficou em paz ao ver que a história saiu do fundo das minhas lembranças para ser eternizada nas páginas dos livros.


WhatsApp Image 2019-02-03 at 22.49.56Marlos Quintanilha é nascido em Itaboraí – RJ, formado em Administração e Pedagogia Cristã. Publicado nas editoras Andross, Rico, Porto da Lenha, Darda, Autores Independentes e Amazon. Idealizador do projeto Contos Coletivos, publicados semanalmente no blog Contos Coletivos e membro da ABERST.