Indiscrições Cotidianas

011

Após duas entediantes semanas, estou de volta ao inebriante mundo de ardis venenosos e, porque não dizer, dissimulados, de nossa maravilhosa sociedade! Estava quase me sufocando com ar rarefeito de fofocas!! Digam-me, como consegui sobreviver sem isso?
Meredith deixa o papel que usava de lado, abre a primeira gaveta da escrivaninha e toma entre os dedos um caderno de capa dura e marrom. Folheia e abre numa página em branco, onde sua rebuscada caligrafia desenha:

13 de maio de 1865
Eu não deveria gastar meu tempo aqui, aliás, essas folhas até hoje só me serviram para roteiro de projetos fracassados. Tornei-me mais séria quando iniciei minha coluna no jornal, e era a ela que deveria estar me dedicando, mas o que vou escrever não é algo que queira compartilhar. Eu mal consigo entendê-lo!

Ontem, contudo, ou talvez sobretudo, ou ainda absurdamente, a noite foi uma das mais agradáveis que já passei no Rio, em muitos anos. Jamais diria isso para minha tia ou para qualquer um que fosse, ocorreria uma catástrofe sem precedentes! Isso faria com que acreditassem que posso conviver com humanos, principalmente os do sexo masculino, que com tanto afinco mantive longe por anos. Minha vida social nunca foi digna de relatos, notas, olhares ou mesmo especulação, até mesmo de familiares. Minha tia,
abandonou toda e qualquer expectativa a meu respeito quando fiz questão de deixar um homem de ceroulas em sua biblioteca, e levar toda sua roupa comigo após uma entrevista mal intencionada.
À época tinha certeza de que tal ardil selaria minha solteirice, mas quis o destino que a influência de minha tia, e meu dote, fossem responsáveis pelo imenso e robusto poço em que o escândalo se perdeu. Posteriormente, devo ser honesta em relatar que me empenhei em cada minuto de meu dia para garantir que minha saúde frágil fosse meu maior trunfo na minha determinação de me manter incógnita da vida. Não minha, é claro, mas de qualquer um que tentasse se aproximar de mim, já que todos pareciam estar
interessados em minha beleza ou dinheiro, nunca em meu cérebro. Até mesmo minha tia o negava, por puro desconhecimento de causa. Ela possui a certeza equivocada de que a mulher que pensa demais, sempre está em apuros.
Mas em que apuros, pensar poderia me dispensar?
Creio que eu agora possua uma vaga ideia… Por que tudo se tornou insignificante quando ele se aproximou de mim.
Quando ele entrou no salão não pude expressar outra reação que não a surpresa. Certamente deixaria suspiros no ar se acaso falássemos de Horácio, mas minha respiração continuava entrecortada após três longos minutos em que eu o acompanhava com o olhar, analisando o quanto ele se sentia à vontade em meio aquelas pessoas, como se ali sempre tivesse estado. Obviamente nada havia a ser recriminado em seus trajes – tecnicamente perfeitos e engomados – , ou sua cortesia – ele realmente sabia como ser um cavalheiro. Nem mesmo seu sorriso poderia ser considerado uma afetação!
Eu estava pasmada!
Tinha quase certeza de que minha total competência em esboçar uma farpa qualquer à cena por ele protagonizada se devia ao fato de que possuo um bom caráter e uma educação exemplar. Minha mãe, quando viva, era uma dama, e sempre me dizia que não devemos ser eloquentes diante do defeito dos outros. Devemos deixá-los confortáveis para que não se sintam menos do que são… Só que ela nunca me disse que uma pessoa assim poderia ser mais do que é, ou do que achava que era. Eu seria capaz de jurar que ela não tinha ideia do estrago que fazia. Não em mim, é claro.
Nunca em mim…
Prossegui silenciosa, totalmente fora do convencional à minha pessoa. Porém, tive a sorte de que minha tia, como todos, estavam arrebatados por sua presença. Eu, por outro lado, tinha a mente tamborilando algumas maquinações indignas, como por exemplo: se ele tropeçasse? Se virasse para o lado errado? Ou… Na verdade, eu não gostaria de pensar isso, mas minha mente funciona com várias opções. Entretanto, ele deitou todos meus esforços de prever um próximo acontecimento por terra. Executou passos perfeitos, sorrisos medidos, tudo milimetricamente ensaiado por alguém que não deveria admitir
erros como eu. Senti-me momentaneamente traída! Ele não era um amador!

Ajeitei-me em minha cadeira ultrajada. Eu dedicara parte de meu tempo prevendo um possível deslize de sua parte, um contratempo, mas tudo se demonstrou desnecessário quando ele provou ter o mesmo conhecimento do universo que eu, e isso era o bastante para deixar meu coração aos pulos, como agora. Indignado! De longe passaria por isso, acaso ele seguisse o ritual a risca, como qualquer ser humano. Qualquer uma daquelas pessoas ali que invariavelmente possuíam um defeito. Falavam demais, comiam demais, ou simplesmente, existiam demais.
Infelizmente, eu não obtive uma maneira de calar meu coração, ou alterar minha respiração, ou mesmo ignorar sua presença como todos faziam a minha. Então eu sorri… Talvez o maior defeito dele fosse esse, não era u mestre na arte da ocultação!
Então todo meu fluxo de pensamento foi paralisado porque ele vinha em minha direção. Havia um sorriso cálido em seu rosto e todos meus sentidos diziam que eu deveria auxiliá-lo, mas minha mente gritava que todo e qualquer obstáculo devem ser vencidos com obstinação, e aqueles eram os dele. Ele se aproximou devagar do jarro de flores ao meu lado e tocou sua pétalas com cuidado e delicadeza. Estudou-as , e eu perdi infinitos minutos admirando o poder daqueles dedos longos sob elas. Com os olhos fixos em mim,
ele retirou uma rosa do ornamento que apreciara e estendeu em minha direção. Era um gesto único, impossível de ser ignorado, assim como ele. Meu coração tamborilou mais rápido, talvez por medo dos espinhos. Reclamou em meu peito suavemente que eu deveria ter recusado como todas as vezes anteriores, mas não o fiz.
Inadvertidamente eu aceitei a flor, seu sorriso e o doce toque de suas mãos nas minhas. Um leve roçar de peles. E, ainda ouvindo minha tia arrulhar algo ao nosso entorno, eu me ergui debilmente de minha cadeira de rodas, quando jamais havia feito tal gesto, deixando meu porto seguro, e pela primeira vez em anos, valsei…
Meredith Baker pausou uma vez mais sua pena e fechou o caderno