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Indiscrições Cotidianas,

por Meredith Baker

Lamentavelmente, essa semana estive acamada, o que para alguém como eu é deveras
cacete, mas não um total impeditivo para reflexões, muito embora tenha que me esforçar
um pouco mais para ponderar o que trazer de interessante para estas linhas, e claro, para
pessoas tão vivazes e interessadas por este toque especial em seu dia.

Estava aqui, na presença de um conviva notório e nada modesto, porém agradabilíssimo,
e com quem se perpetua uma conversa por horas, podendo-se ou não abordar mais que
um assunto nesse tempo. Folgo em dizer que sou capaz de ver cada cena que suas
palavras delineiam tão bem, como se fossem, de fato, concebidas diante de meus
próprios olhos.

Pois bem, foi através desse interlúdio que obtive a certeza de que deveria – sem perda
alguma de tempo -, mandar chamar o renomado mancebo que anda causando suspiros
em muitas jovens, e que tem atraído muitas enfermas à Rua Direita. Como é sabido da
maioria, uma antiga botica foi reaberta ao público atraindo uma robusta clientela feminina
à rua mais celebrada da corte, após a Ouvidor. Tal sucesso, dizem muitas línguas, se
deve ao seu dono, um jovem cavalheiro que herdou do pai não só a arte do manuseio
elixires e unguentos, como também um conhecimento natural e entusiasta por perfumes.
Não posso dizer que, como todas, não fui afetada pela curiosidade e interesse, que
reconheço ser em mim uma necessidade nata.

Ocorre, para deleite e, talvez, surpresa de muitos, assim como minha, que ao estar na
presença do jovem, fui colhida por um sentimento inusitado, o do completo êxtase. Não
me concebo outra expressão que possa determinar o que é reconhecer a beleza em sua
forma mais bruta, e ao mesmo tempo, a força inexorável da natureza, quando não lhe
concede o dom de apreciá-la. Fiquei por um período que, reconheço, chamarei de
vergonhoso, sem esboçar qualquer mínimo ruído, mas não sem ter a certeza de que era
compreendida em meu silêncio mais do que se esboçasse mil palavras.

O vazio que a cegueira pode acercar em nossos corações jamais pode ser imposto
àqueles que a possuem, pois os ruídos do mundo, a percepção dos perfumes, a essência
que nos rodeia é muito mais ampla a e avassaladora aos sentidos do que a imagem, a
quem podemos silenciosamente revestir de qualidades ou defeitos. A essência é nua e
crua, mais vívida e colorida em toda sua complexidade. Aqueles olhos azuis que me
fitavam não eram comuns, e certamente conseguiam enxergar muito mais do que eu
ousaria mostrar. O rosto era perfeito, em traços fortes e ligeiramente quadrados; os
cabelos escuros como ébano, displicentemente arrumados… Mas o sorriso que se formou
em seus lábios poderia derreter um iceberg. E, estranhamente, todo aquele quadro era
desconhecido de quem o proporcionava. Era genuíno, incapaz de se impôr a qualquer um
por suas excentricidades naturais, mas intenso e determinado ao querer o bem ao
próximo.

É estranho que para as bandas da Rua Direita haja ainda algo tão primitivo e intocado
como aquela botica. Onde perfumes e ervas se misturam; onde o tempo parece
desaparecer ou se perpetuar em mãos tão hábeis, numa percepção tão tênue. Não
recomendo que procure-se a botica em busca, tão somente, da cura de seus males, seja
da alma, do coração, ou puramente da emoção. Mas sim, se procuras reconhecer o que
de mais puro há no mundo.

Encantadoramente, encantada,
a sempre sua,
Meredith Baker.

*Um texto de Roxane Norris

**Essa coluna é atualizada toda segunda feira