Ao longo da vida, nunca me enquadrei em determinados padrões que pareciam os “corretos” da sociedade. Nem os estéticos, nem os comportamentais. Sentia-me fora da caixa, tentava me forçar a ser algo que eu não era,  pra me encaixar. Nunca fui a menina “boazinha”.

Eu queria ser como todo mundo, como os padrões de meninas que eu via nas novelas, filmes, séries e livros. Então eu achava que estava tudo certo com o meu sofrimento, e, assim como as mocinhas dos romances de banca, um dia chegaria o meu felizes para sempre.

Por sorte, eu cresci. E por alguma capacidade que eu realmente desconheço ou sei denominar, comecei a me dar conta que eu não precisava me encaixar. Eu não precisava nem ter o corpo das personagens ou atrizes, nem sofrer ou aceitar qualquer coisa de um parceiro esperando a mudança radical dele,  e nem esperar o meu conto de fadas.

Me dei conta que eu era o meu próprio padrão, meu inicio, meio e fim feliz, mas, principalmente, que eu não precisava de ninguém me salvando. (Mesmo que essa ideia pareça vir com mil coraçõezinhos românticos e uma trilha sonora de love songs).

Comecei então a procurar por livros onde eu me identificasse. Vasculhei as bibliotecas atrás das mulheres fortes, que não se dobravam, que não se encaixavam no padrão Sabrina de ser. Mulheres que tomavam as rédeas da sua vida, com ou sem parceiros, mas que eram capazes de escolher as suas dores e sofrimentos.

Porque nós escolhemos. Escolhemos, mesmo que inconscientemente, como lidar e reagir em cada situação. É o tal do livre arbítrio, que falamos tanto em termos religiosos, mas esquecemos que ele existe em tudo na nossa existência, nos lembra que a decisão é nossa.

Na minha busca na literatura clássica por heroínas, tive certa dificuldade. Mulheres fortes não eram as protagonistas mais comuns. Os homens, que predominante escreviam livros antigamente, em sua maioria retratavam suas musas literárias, como mulheres doces, meigas, submissas, desconhecedoras dos prazeres da carne e, principalmente, suas conquistas vinham depois de todo o sofrimento de uma vida, quando um príncipe encantado a resgatava. (Já conversamos sobre príncipes encantados aqui, lembra?)

Hoje nós já temos muitos livros onde as protagonistas não mais se encaixam nesse estereótipo — Ouvi um Aleluia, irmãos?! —, mas ainda assim, não é incomum ouvirmos de leitoras falas do tipo “ela é tão diferente”, “me identifiquei tanto com ela” ou a melhor de todas — e eu juro que ouvi mais de uma vez —  “como ela conseguiu superar tudo isso SOZINHA” .

A nossa capacidade de perceber a mulher como uma pessoa, com direitos, deveres, vontades e capacidades, foi tão enterrada pela cultura machista em que vivemos, que não nos achamos capazes de resolver nada sozinhas. Esperamos pelo outro, pelo nosso salvador e quando um livro — ou filme — nos mostra que não precisa ser assim. Achamos a história diferente, como se aquilo não fosse possível. Porém, conhecer o cara mais rico do mundo pra te salvar da tua vidinha sem graça, parece normal pra todas nós.

Não tem problema nenhum você gostar de histórias assim. E nem querer um Christian Grey em sua vida. Nada mesmo. Se a escolha for sua e não da sociedade. Assim como não tem nada de errado você querer ou ser de qualquer outra forma. Ter outros sonhos que não sejam o salvador da pátria, resolver os seus perrengues sozinha. Desde que você use o seu livre arbítrio pra isso.

Mulheres empoderadas andam aos milhares nas ruas. Assumindo suas formas, protestando, exigindo seus direitos, não se acovardando em um meio de homens que tentam diminui-la. E pra nossa sorte, agora elas também estão nos livros pra nos reafirmar que podemos ser o que quisermos.

Dicas de leitura:

Perdida na vida

As vantagens de ser traída

Três formas de amor

Dragão do Norte

Uma bandeira pra Carlito

Até a próxima!

Sobre a autora:


Luísa Aranha é jornalista, blogueira e escritora. Tem o chimarrão como seu companheiro inseparável nas horas de trabalho. Escrever para ela é tão natural quanto respirar. Antes de ser alfabetizada já era uma contadora de histórias, inventando brincadeiras e diálogos com suas bonecas. Todos os seus trabalhos podem ser conferidos no seu site: www.luisaaranha.com.br