oscar wilde

Acordaria

Numa hora poente do dia

Tomaria café

Deitaria e leria

Por uma noite toda

Só comigo

E na madrugada

Acreditar que consigo

Penso e repenso

Azo e ira lado a lado

Se vale a pena

Coabitar no passado

Ruí através

De um encontro inocente

Mas o Amazonas

Não vem da tenra nascente?

Foi num congresso

De velhos colegas

De tezes viçosas

E esperanças tão cegas

Se era antes dali

Rapaz sem amigos

Cheguei a pensar

Que era dos preferidos

Em meio à arenga

Vazia de razão

Perguntei se você

Me ensinava violão

Aí eu aprendo

Suas canções favoritas

Através do toque

De suas cordas aflitas

Dispostas em acordes

De impaciência

(Começo a ansiar

Pela sua presença)

Na festa do ano

Você não tá acompanhada

E a cada vez que te olho

Camuflo uma risada

Na lição seguinte

Você carrega um sobrolho

Vênus de Milo

Havia ficado de molho

Naquela noite

Não durmo, eu flutuo

E se a sombra de acordar

Aparece, eu recuo

Suo e me arrumo

Um pouco disto, um pouco desta

Nunca havia reparado

Que tenho um tico de testa

Toca o interfone

No apt que tá um charme

Mas basta me olhar

Pra você pensar num desarme

Aí solto o violão

E me declaro à la Vinícius

Seu rosto é uma pérola:

“Esse garoto tem issues

Ruflem os tambores

Foi-se o fim das aulas

A puma e o babuíno

Retornam pra suas jaulas

Me diga como focar

Nos tercetos de Dante

Se o meu paraíso

Nem se vê de um mirante

Pra dor do amor

Tem hora que chegue

Mil anos depois

Do defunto entregue

Seca, umidade

Seca, umidade

Um dia um poeta falou

Pra que eu mudasse de cidade

Então, assim, eis que você

Pede pelo meu endereço:

“Amigo, a gente precisa

Partir para um novo começo

Mas vê se cuida você

Do teu amor assaz sempiterno

Sei que basta para mim

Um puro liame fraterno”

Pois que eu entrego a você

Uma palavra lisonjeira

Do afeto que sempre guardei

E que me fará a carreira

 

Gabriel Rico

 

11/08/2017