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Seguir os padrões. O tempo todo a mídia, o entretenimento, os filmes, os livros e o discurso comum das pessoas reforçam um régua que mede as pessoas. Você deve ser assim, ou assado, comportar desta e daquela maneira. Enquadrar as pessoas e fazer elas ficarem todas bem igualzinhas. E aí de você se sair dessa reprodução em série… Jamais seja gay. E tem que ser magro, hein. E quando você saí da caixinha estabelecida mais de uma vez? Ser gay e gordo, como fazer e viver com as opressões diárias?

Se, de alguma maneira, são produtos culturais que reforçam os padrões é essa mesmo produção que pode ajudá-la a quebrá-los. É sobre isso que trata “Quinze Dias”, de Vitor Martins. Uma leitura leve, apaixonante e divertido. O romance entre o narrador Felipe e seu vizinho do 57, Caio, é narrado com um delicadeza e ingenuidade cativantes. Apesar disso, o texto toca em assuntos espinhosos e urgentes como aceitações, preconceitos, padrões de belezas e outras pautas LGBT. Conseguindo a proza de abordar assuntos profundos sem que isso te deixe angustiado. Afinal, o riso também tem seu poder transformador.

O livro tem muitos pontos a seu favor. Uma história banal, simples, mas bem amarrada que nos conquista pela fácil identificação. Não espere viradas hollywoodianos, mas o simples sabor do cotidiano e das inseguranças adolescentes. O tom juvenil do livro fica entre o ingênuo e o apaixonante, podendo despertar a paixão das mais diversas faixas etárias. Em nenhuma momento, os personagens são infantilizados ou parecem bobos demais, como pode acontecer em algumas narrativas desse tipo. O carisma de Felipe e suas milhões de questões a respeito de si mesmo nos transportam para os difíceis anos de colégio e inseguranças típicas do período. Apesar do conflito geral do personagem girar em torno do fato dele ser gordo, eu me senti refletido ali no que diz respeito as inseguranças que temos com o nosso corpo. Independente de qualquer coisa, somos ensinados a não nos sentir satisfeitos com nossas formas, e sempre achamos que algo aqui ou ali pode ser melhorado. É assim que os dramas de Felipe fazem refletir sobre nós mesmos.

Questões tão complexas como gordofobia e homofobia são discutidas de formas leves na trama central do romance. Apesar de tantas inseguranças, Felipe em nenhum momento é rancoroso ou deixa o livro se tornar sombrio demais. É claro em que há muitos momentos em que ele é cruel consigo mesmo e isso nos faz refletir sobre como o preconceito é introjetado na gente, mas nunca dando um nó em nossa garganta. Umas das maiores espertezas da narrativa é mostrar como essas questões podem afetar a nossa vida nos mínimos detalhes, nas situações mais cotidianas e corriqueiras. Neste sentido, a criação de várias simbologias dentre da história é absolutamente brilhante, como as questões envolvendo “ir à piscina”, além de várias referências POP maravilhosas que divertem e causam reflexão.

Outro ponto alto são os personagens secundários cativantes e que ajudam Felipe em sua jornada, como a sua maravilhosa mãe Rita, as namoradas Beca e Melissa, que se tornam pontos importantes na transformação do nosso narrador. O carisma de todos os personagens da história é algo impressionante. Sério, você não odeia ninguém (Tirando os valentões idiotas que praticam bullying). Todos eles funcionam entre si, com aquela sensação de “quero ser amigos deles”. Todos ajudam Felipe em aceitar a si mesmo, construindo assim uma transformação incrível. O chamado “arco dramático” do personagem, que é a solução de um conflito para sua transformação interna, é feito com maestria pelo autor. Fica claro pra gente seu amadurecimento durante o livro, numa bem estruturada sucessão de acontecimentos. A primeira e última frase da história marcam muito bem a transformação na vida do personagem. O estilo de Vitor deixam claras ainda muitas referências contemporâneas em sua escrita, como John Green e David Levithan.

“Quinze Dias” é uma obra apaixonante, leve e divertida, desenvolvida com muita clareza na transformação de Felipe na aceitação de seu próprio corpo e sua sexualidade. Tais conflitos abrem a identificação para nós leitores, numa narrativa que nos fisga com o bom humor e a leveza em tratar assuntos tão profundos. Qualidades que quando o derradeiro fim chega, nos fazem fechar o livro com uma sensação gostosa, causada pela reflexão, nos transformando em pessoas melhores.

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Leonardo Antan é escritor gay e morador da periferia do Rio de Janeiro, escreveu os romances “A gente dá certo” e “Deixa Rolar” voltados para o público jovem. É curador independente do projeto “Dia de Glória e um dos diretores do site “Carnavalize”. Atua entre as artes visuais, os desfiles das escolas de samba e a literatura.