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Vá a livraria e olhe as capas dos principais romances em destaque. Ou sem tanto esforço, observe a lista dos mais vendidos da Amazon. Com certeza você vai achar capas lindas e outras de gosto duvidoso, casais se abraçando, de mão dadas… Ou galãs descamisados para as histórias mais quentes. Mocinhas indefesas também são recorrentes… Mas posso garantir, a maioria são todos bem brancos e magros. E então, pergunto, cadê a diversidade nas capas de romances?

Até em histórias gays, o casal também é sempre branco, quando os personagem não repetem o binarismo de masculino e afeminada. Na nossa sociedade, ainda mais em tempo de discussão acalorado sobre diversidade, é preciso criar novas representatividades. A transformação social só vem através da tomada de poder dos aparelhos culturais, da transformação da industria cultural, que dite menos padrões normativos e abra possibilidades para sermos quem somos sem amarras.

Contando um relato pessoal sobre esse assunto, lembro de quando escrevi “A gente dá certo”, meu livro lançado pela Rico Editora. Juliana e Rodrigo são um casal que viveram no subúrbio de Madureira, ele era branco, bem padrãozinho, e ela, filha de uma mãe negra, e chamada primeiramente de “morena”. Aos poucos, durante o processo de escrita, fui aprendendo mais sobre toda a discussão que envolve o colorismo e os conceitos de negros de pele clara, que são lidos como menos negros pela sociedade. Olhando de novo para Juliana, reparei que minha protagonista não era “morena”, mas sim negra de pele clara. Com isso, transformei toda a narrativa da história para ganhar essa nova discussão. Na hora de fazer a capa, queria um casal inter-racial, que representasse todas as dicotomias que Juliana e Rodrigo enfrentavam após se reencontrarem dez anos, depois um fim traumático. Procurando em diversos bancos de imagens, foram pouquíssimas as fotos que traziam de fato uma mulher negra de cabelo cacheado como a personagem. Com a dificuldade, tive que recorrer então a uma ilustração, que trouxe os cabelo volumosos que a personagem carregava.

Assim, como Juliana, que além de negra é bissexual, precisamos de personagens que fogem aos esteriótipos. A literatura precisa de mais diversidade! Queremos menos casais heterossexuais, cisgêneros, brancos e magros nas capas dos livros. Queremos novos padrões, novas histórias, novas diversidades, que representem todos os tipos de corpos e amores, que mostrem que podemos ser aceitos e amados do jeitinho que somos.

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Leonardo Antan é escritor gay e morador da periferia do Rio de Janeiro, escreveu os romances “A gente dá certo” e “Deixa Rolar” voltados para o público jovem. É curador independente do projeto “Dia de Glória e um dos diretores do site “Carnavalize”. Atua entre as artes visuais, os desfiles das escolas de samba e a literatura.