“Mas a eletricidade não desapareceu, meu jovem amigo. Se ela tivesse desaparecido, nós não existiríamos mais, teríamos retornado ao nada, nós e o universo. Nós, esta mesa, este seixo, tudo isso não são senão combinações maravilhosas de força. A matéria e a energia são uma única coisa. Nada pode desaparecer, ou tudo desaparecerá junto. O que se passa é uma mudança nas manifestações do fluído elétrico. Uma mudança que nos aborrece, que demoliu todo o edifício da ciência que construímos, mas que sem dúvida não tem nem mais nem menos importância para o universo que a batida da asa de uma borboleta.”

Autores: René Barjavel

Título Original: Ravage

Origem: França

Editora: Circulo do Livro

Cidade da Editora: São Paulo

Ano de Publicação: 1976

Ano de Publicação Original: 1943

Número de Páginas: 240

Edição: 2a edição

Modalidade: Romance

Escrito por René Barjavel em 1943, esse é um livro o que deve ser lido muitas e muitas vezes.

A história trata de uma sociedade ultra tecnológica próximo ao ano de 2052  d.C. (a data logo estará chegando), lembrando que o livro foi escrito em um período de final da 2ª Guerra Mundial e início da Guerra Fria, então ele imaginou que este seria o futuro da humanidade na nossa linha temporal.

Na época mencionada no livro, o trabalho como conhecemos não existe mais de maneira que tudo que você necessitava poderia ser retirado da natureza através do toque de alguns botões.

O protagonista da história que começa em uma Paris futurista enorme, construída sobre os restos da velha Paris e alcançando altitudes tremendas, François Deschamps é um rapaz de 22 anos que sonha em ser artista e não sabe, mas a sua noiva prometida acaba sendo transformada na nova Vedete Regina Vox, a apresentadora mais perfeita do canal 3000, determinada assim através de exaustivos testes o que desagradou profundamente o seu noivo.

Os dois vieram de uma sociedade rural e tem todo o vigor da juventude. Criados no sudoeste da França, considerado um lugar atrasado pelos parisienses por ainda utilizarem a força das mãos para fazer atividades necessário para a produção de alimentos, algo considerado risível e até indigno em uma sociedade altamente tecnológica onde tudo gira em torno de máquinas e sistemas sofisticados de informação, de maneira que os dois são um tanto deslocados em relação aos habitantes dos grandes centros urbanos. Mas o foco do livro não é uma comédia de costumes e sim uma aterrorizante distopia onde o homem dependente de tecnologia ao extremo não consegue lidar com a súbita mudança nos sistemas elétricos.

René Berjavel manipula de maneira magistral sua fábula distópica com um aterrorizante fundo social, onde o ser humano é colocado em seu devido lugar por uma natureza selvagem e descobre que o mundo inóspito acaba sendo o menor dos seus problemas, pois a relação entre as pessoas é testada até os limites da moralidade e apenas os mais fortes e mais preparados sobreviverão a esse temível novo (ou velho) mundo.

Canibalismo, violência, assassinato, suicídio, culto aos mortos e outros temas são tratados sem pudor pelo autor.

A obra foi muitas vezes replicada em outras que surgiram posteriormente, sendo seus elementos identificados em menor ou maior grau contidos nesse livro onde Berjavel destila todo seu pessimismo e amargura quanto ao gênero Homo, seu estilo de escrita é rápido, seco, pesado e não abre concessões.

O fim do mundo será duro, para os que não se prepararem.

Do Exterminador do Futuro, A Estrada e a serie The Walking Dead, muitos beberam dessa fonte e ele é um dos meus escritores de cabeceira.

Só amo!

Ah, um adendo: o Brasil aparece no livro e não de forma muito lisonjeira!

Se encontrar o livro em um sebo, me dê de presente, pois não existe relançamento depois de 1976 e eu não tenho mais (meu professor de filosofia da faculdade pegou emprestado para ler e nunca mais me devolveu).

“Pensar enlouquece, pense nisso”

Humberto Lima é professor de Geografia e observador do mundo. Reside em São Paulo, capital na região da Zona Leste, tem um filho de 23 anos. Apaixonado por terror em filmes, seriados e livros. Amante de mitologia e estudante em tempo integral com áreas de interesse que abrangem do sobrenatural ao banal, do erudito ao pop. Participa em mais de 25 antologias em editoras diversas.