treasurechest

por A. T. Sergio

Algo que me perguntam com frequência é como nascem as ideias para construir os mundos em que se baseiam minhas histórias. Seja em uma roda de amigos, entre familiares, nas redes sociais ou através de contatos diretos com leitores, este questionamento está sempre presente, apresentando a curiosidade não só pela obra, mas também por todo o processo criativo. Posso adiantar que não há uma resposta fácil e direta.

O desafio nem sempre reticente da razão contra a emoção é intrínseco ao ser humano e os escritores não estão livres de mergulhar no caos, travando verdadeiras batalhas contra prazos apertados e a vontade de levar ao público histórias cada vez mais envolventes. Nestas horas, quando o instinto recua, dando lugar apenas ao método, as mãos travam e a criatividade adormece.

Há técnicas para praticamente tudo em relação à escrita, me confesso usuário de algumas, mas nada substitui o acúmulo de sensações despertadas por movimentos da realidade que nos rodeia. Uma luz piscando em um ambiente fechado, uma porta rangendo, o latido de um cachorro que tira sua concentração por um instante, a leitura de um livro parado há tempos em sua estante, qualquer situação em que sua mente seja acionada em conjunto com um sentimento ou emoção, pode resultar em uma anotação mental ou física para utilização em algum texto. Muitos de meus eventuais bloqueios foram resolvidos através do contato com instantes como esses, com meu coração percebendo a relevância do momento, libertando a mente da prisão racional proveniente da necessidade de uma simples concatenação de palavras.

As experiências cotidianas são fontes inesgotáveis de reserva de conteúdo para histórias em todos os estilos e gêneros.

Mesmo com uma base tão rica, não há padrão para construção de imagens através de palavras na tela ou no papel. Mostrar ao leitor o que se passa na alma do escritor é um desafio desgastante que requer não só concentração, mas desapego, entrega de uma parte do autor, livre de amarras e completamente desnuda. As cenas mais vivas na mente de quem escreve podem ser verdadeiros fracassos, pela utilização de termos que não consigam levar ao leitor a insinuação de que ele faz parte da história.

A pergunta então se transmuta, excedendo o limite da origem do texto, passando a considerar o desenvolvimento da escrita e o que este proporciona àqueles que mantém contato com a história. Em jogo temos o dia-a-dia, as emoções, a alma do autor e a capacidade de interpretação do leitor. De cada uma dessas partes é que se constrói o enredo, se desenvolve a história.

Afinal, de onde vêm as ideias e delas os livros?

Vamos descobrir juntos, experimentando, vivendo, nos percebendo participantes ativos do mundo e da sociedade que nos cerca. E quando formos colocar em símbolos gráficos o que pensamos e sentimos, talvez consigamos vislumbrar uma pequena parte da origem real do texto.

E aqui nesse espaço, se vocês acreditarem no tema e na viagem, vamos sempre abordar a criação antes da criatura, a ideia antes da forma. Vamos juntos?

 

                                                                                                                                                                                      

EuEscritor pernambucano, romancista e participante de antologias nos gêneros terror/suspense/mistério/policial.

Entre seus trabalhos mais recentes há contos de terror em antologias das editoras Luva, Rouxinol, Lendari, Rico, Delirium, Constelação, além de obras independentes publicadas diretamente na Amazon.

Membro da ABERST (Associação Brasileira de Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror).