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O pornográfico, o erótico e o tabu

Desde que a humanidade existe, com sua racionalidade, preceitos e conceitos, buscamos utilizar na arte uma ferramenta como liberação de nossos desejos. Sejam sombrios ou ousados, pecaminosos ou chocantes, sempre temos a maneira exata de nos expurgarmos, por assim dizer. E na literatura não é diferente… Através da ficção, especialmente, construímos tramas que os leitores possam compreender com exemplos práticos e transformá-los em críticas ou exaltações, denegrindo mitos ou até mesmo esclarecendo fatos. E toda e qualquer obra deve ser valorizada, pois encontra em seu público – ou nicho, como muitos dizem – uma fonte de apreciação ou até mesmo discussão. O que importa é que a obra traga algo ao leitor (a), mexa em seu emocional de alguma forma.

Essa semana, algumas coisas que aconteceram a minha volta, chamaram-me a atenção, o que me levantar essa pauta da semana.

  1. Uma amiga querida e leitora, que faz parte de muitos grupos literários, dos mais variados gêneros, devido a sua amplitude de conhecimentos, foi criticada por outra, no privado, por ler livros eróticos, os chamados hot, já que ambas faziam parte de outro, cujo tema eram obras clássicas. Na cabeça da outra, como uma mulher que lia Jane Austen leria uma Josy Stoque, ou sequer uma Mila Wander, quiçá uma Tatiana Amaral? Que sacrilégio!
  2. Em outra vez, uma leitora me declarou que as mulheres ainda são julgadas em lugares públicos por aquilo que elas lêem. Que os olhares quando percebem que está mergulhada um livro erótico é diferenciado de quando está diante de um romance ou um suspense. Ou seja, não apenas as obras são julgadas pelas capas. Ou se a pessoa é santa ou puta também?! Diga-me o que tu lêes e eu te direi quem és…
  3. E para finalizar, com chave de ouro, vi uma das entrevistas com a mestra Hilda Hilst assim que lançou o Caderno Rosa de Lori Lamby. O livro, feito para chocar, onde o sexo é exposto e escarrachado como forma de alerta e crítica, com as palavras afiadas dessa mulher fenomenal, é criticado e açoitado, e ela concorda com tudo, com o sarcasmo habitual, que lhe era característica. Mas depois, quando deve editar algumas cenas, é nas respostas off records, que ao citar nome como Sade, Henry Miller e Decamerão, os cita como pornógrafos clássicos, e que um dia espera ser como eles. E assume que adorou escrever aquilo que muitos consideravam um lixo…

Ah, Hilda Hilst… Espero ser um dia pornógrafo como você. Ou João Ubaldo Ribeiro. Ou Jorge Amado… Ou tantos mestres que colocaram o sexo na trama com naturalidade, mostrando em seu tempo a beleza crua e impulsiva do desejo.

O sexo sempre existiu na literatura. Cultuado e exposto, visto como crítica e comédia de costumes.

Posso citar Diderot, que publicou anonimamente, em 1748, o seu Joias Indiscretas. A obra fala sobre um sultão entediado que recebe de um gênio um anel que fará as mulheres lhe contarem suas aventuras em voz alta, mas não pela boca, mas sim pelas suas “joias”, as partes mais francas de suas anatomias. Ou quem sabe Teresa Filósofa, um dos primeiros best-sellers europeus do século 18, cuja moça é punida, de quatro, com um cabo santo, capaz de operar milagres. Temos A história de O, as obras de Sade, Henry Miller e Anais Nin… Ou o tão cultuado Bukowski. E no Brasil não ficamos adiante, com Nelson Rodrigues ou Adelaide Carraro. Ou quer dizer que O Cortiço não se fala de sexo, com toda sua expoente crueza? Ou o bode velho de Jorge Amado, logo no início de Tieta, quando a protagonista perde sua virgindade?

A questão é porque o sexo ainda é tabu? Porque precisa ter uma classificação que o enquadre, com nomes pomposos talvez ou americanizados? Na literatura adulta, ele sempre está presente, deixando a sua marca, seja culminando o amor dos protagonistas, as portas fechadas ou escancaradas, e isso não vai mudar. Isso não deprecia a trama ou o autor. Caso seja demais para o seu gosto pessoal, não leia. Mas não critique sem ao menos conhecer. Pois o bom sexo literário cabe em todos os gêneros. Em um suspense, até mesmo em um terror, que são gêneros que parecem tão avessos – para alguns – com o erotismo. Assim como a fome, a vingança, a dor, o orgasmo e os corpos entrelaçados podem exprimir não apenas prazer, mas ódio… Ser algo transformador no crescimento ou destruição do personagem. Se ele for bem usado, e não jogado a esmo em uma série de cenas sem sentido, ele faz algo mais que entreter, e sim te fazer pensar.

Mas há males que vem para o bem. Graças ao sistema patriarcal e machista que vemos diariamente em nossas vidas, as leitoras descobriram no mercado digital como providenciar suas leituras sem incômodo, dando a oportunidade de muita gente boa se destacar e conseguir espaços onde antes levaria anos. Os outros setores de entretenimento aos poucos veem naquilo que não vejo problema nenhum em falar pornografia, se alguém assim apontar, como algo que atrai as pessoas e é financeiramente viável. Temos o orgulho de ver grandes nomes como Nana Pavoulih tendo suas obras fechadas com a Vênus Platinada, a grande Rede Globo. Outros nomes tem sido cotados para filmes ou edições internacionais, mostrando que somos “ótimos de cama”. Penso, sinceramente, que devemos perder a vergonha de ler sobre aquilo que fazemos – ou desejamos fazer – em nossas intimidades e vivenciar as nossas emoções ou fetiches através da literatura, e parar de pensar em críticas e bancadas com apontamentos para aquilo que consideram profano. Toda leitura deve ser valorizada e se dar certo, deve receber o seu merecido destaque. Em um panorama atual onde o conhecimento é tão pouco valorizado, deixe que os livros façam a sua parte, e critiquem o sistema obtuso e de falso moralismo que muitos de nós vivem ultimamente.

Ainda estamos no caminho de nos tornarmos exímios pornógrafos contemporâneos, vale salientar. Temos um calhamaço de gente escrevendo um livro com o máximo de cenas de coito possíveis, para ganhar a confiança do leitor em quantidade, não em qualidade. Sequer pensam no que escrevem, simplesmente a colocam ali, em uma sequência de posições que mais parecem um exame ginecológico do que algo a despertar sensações em quem o lê.  Se quiser escrever sobre o famoso S, não seja dessas pessoas… Faça uma trama bem amarrada, onde ele seja parte da história, não um adereço desnecessário. Se for sem sentido, não o faça.

Mas se tiver tudo em mãos, porque não usar? Libere-se e vamos falar sobre sexo sim, porque em um período tão denso, onde o choro, a violência e a banalidade se tornaram rotina na vida das pessoas, porque não permitir que viajem para suas próprias fantasias?

Afinal, se o choro é livre, porque o orgasmo não?

Por Danilo Barbosa

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