Profissão: Escritor

20370955_1842954945721699_647528914_n

—Oi, tudo bem?
— Tudo joia. E você?
—Tudo bem…
— O que faz da vida?
— Eu sou escritor. E você?
— Escritor? Legal…. Mas trabalha com o quê?

Atire a primeira pedra a pessoa que já tem textos publicados e nunca passou por uma situação como essa. Pois é, conversando em eventos literários com autores das mais diversas editoras e bate-papos com leitores, essa é uma questão frequente, que causa muita frustração entre essa fatia do mercado.
Então, ao analisar bem o fato, resolvi falar um pouco sobre o escritor como profissão. E ser, talvez, um pouquinho o advogado do diabo e expor a mesma questão por uma vertente diferente:
Como você atua na profissão de escritor?
Porque uma coisa é um fato: existe uma diferença entre contar as suas histórias e ter a escrita como profissão.
No primeiro caso você quer ser lido, apenas. Gosta de elaborar suas tramas e compartilhar com as pessoas. Talvez com amigos, inicialmente. Depois com o público, em uma das plataformas digitais que mais se identificar. Se emociona com as reações, fica bravo com as críticas e defende o livro como se fosse um filho querido, eternamente debaixo das suas asas. E assim publica uma coisa e outra, conforme a imaginação vir. Conhece outros escritores, abre os horizontes. Se uma editora um dia lhe chamar, vai ser lindo. Mas se não, beleza, o que vir está bom.
Não é verdade?
Se você é a pessoa que se ofende na situação do começo desse texto, não. Para ser um escritor você deve levar a situação a sério e dar o melhor de si, full time. Afinal, o sucesso de sua carreira não depende de editoras, agentes ou qualquer outro elo dessa corrente chamado mercado literário. Depende, em primeira mão, única e exclusivamente de você. A editora e o agente, por exemplo, são responsáveis pela publicação e negociação de seus textos, não da forma como age, pensa e fala, nunca pela maneira como você leva a sua carreira literária. O escritor pode ter o melhor texto do mundo, mas ele nunca será procurado por uma boa editora ou um agente se não criar bases sólidas, com responsabilidade, disposição e respeito. Para crescer, você deve ser notado, e não de modo pejorativo. Nunca. Então, para isso, seguem algumas dicas essenciais para quem deseja ter sucesso na carreira de escritor e fazer dela verdadeiramente uma profissão.

1. Sua ideia nunca é inédita. Seu livro não é o melhor do mundo. Muitos títulos são lançados nas livrarias e plataformas digitais como o seu. O que vai mudar? A forma com que aborda e constrói a história. Portanto, pense e analise. Tenha cuidado ao escrever. Termine e releia, caso ache necessário. Dê para alguém ler, que seja extremamente chato. Revise e deixe o seu livro o melhor que conseguir. Nunca
publique texto sem revisar ou tirar as arestas. Contrate um copidesque, se puder. Se você, como escritor, não respeitar o seu leitor nos mínimos detalhes, você nunca conseguirá esse respeito de volta. Você não consegue ter o que não pode dar.
2. Pode parecer cruel o que vou falar agora, mas é um fato. O escritor é um profissional que deve oferecer um produto de qualidade e vendável. No caso? O livro. Ele é seu, concordo. Mas o cordão umbilical deve ser rompido assim que você coloca o fim no papel. No máximo, a partir do momento que tem uma revisão de publicação. Sua meta, a partir daí, é fazer com que ele venda, atinja o seu público-alvo e gere números. Porque as editoras não tem esse amor que os escritores tem com a obra. Por mais que seu livro inédito seja lindo, se o seu livro não gerar rendimentos e se pagar, não terá contrato novo. Assim como se o escritor não estiver feliz com a editora, vai atrás de quem tem uma oferta melhor. O fato de desejar fazer a diferença com o seu leitor tem de ser utilizado como diferencial lá atrás, na escrita. O amor que se dedicou às palavras na escrita vão fazer a diferença, é claro. Mas guarde cada passo para o momento adequado de sua estratégia.
3. Sim, você sempre deve se colocar metas e tecer estratégias para se destacar. Não quer um dia viver da escrita? Então invista seu tempo – e muitas vezes dinheiro – na carreira. Como tudo na vida, para que cresça é necessário que cuide. Desde determinar o seu público leitor primário a quantos livros pretende publicar por ano; como adquirir números sólidos de venda e fidelizar os leitores; como alcançar a editora que deseja e por aí vai. Não existe depois eu faço, hoje eu posso deixar ou a rede é minha e posso falar o que quiser... O sucesso e o fracasso é uma linha tênue e vai depender somente de você de qual lado ficar.
4. E a vida privada desceu pelo ralo… Pois é, você consegue fazer o seu tempo para a escrita, mas raramente a profissão escritor tem momentos de folga. Leitores te chamarão nas redes sociais nos mais diversos horários. Surgirão pessoas legais, dispostas a te oferecer boas oportunidades, e outras dispostas a te sugar. Cada palavra na sua rede social será vigiada e terá dez pessoas para falar mal de você e quinhentas para te destruir. Então você será escritor todo o tempo, tratando o leitor como sua prioridade. Afinal, você é o que é graças a eles. E caso a pessoa não goste do seu livro, não permita que isso soe pessoal. Livro é igual relacionar-se. Ás vezes a pessoa que me atrai não é quem te chama a atenção, e vice-versa. Vai da experiência e opinião pessoal de cada um. Ninguém é mais ou menos por gostar de determinado gênero ou título e odiar outros.
5. Na época em que eu trabalhava em editora, conheci uma grande pessoa no mercado que não trabalhava com certos autores, muitos até de grande prestígio. Um dia perguntei porque, e fui respondido com a maior sinceridade possível: ele não precisa de um profissional, precisa de uma babá. E hoje eu vejo que existem muitas pessoas que acham que todos os envolvidos no trabalho do seu livro acham que as pessoas devem cuidar da vida deles, que são os seus amigos e vão resolver as suas vidas. Parem por aí e saibam diferenciar o emocional do pessoal. Ego é uma coisa que não funciona no mercado editorial, sequer vitimismo ou promessas vazias. Isso é um negócio e deve ser tratado como tal. Ficar magoado com o seu agente ou com a editora por qual passou não vai resolver a sua vida. A principal vítima do  mimimismo é quem o faz, simplesmente. As pessoas ao seu redor vão te dar ferramentas para trabalhar. Se vai utilizá-las ou não da forma correta, o problema já não é deles.
6. Concorrência leal é a chave do negócio. Não gostou do livro de determinado escritor, não faça um post imenso destruindo o livro… Lembre-se que você está na mesma posição que o outro. Portanto, abstenha-se. Quando um escritor brasileiro cresce, abre margem para que mais pessoas subam um degrau rumo ao sucesso. O que vai te dar mais destaque – ou não – é a somatória do conjunto autor e obra. O leitor acaba fazendo a peneira do que é bom ou não, e se a sua carreira não está dando certo, talvez seja hora de rever os seus conceitos e arrumar o seu jardim, não secar o do vizinho. Tem espaço para todo mundo – ou acha que o leitor só vai te ler durante um ano todo?
7. Não perca os seus objetivos, nunca. Siga o seu caminho, focado, não importa quanto tempo leve. Já vi autores explodindo e se tornando fenômenos no mercado, e alguns autores, muitos excelentes, caírem no esquecimento. Você terá o seu tempo de maturação e desabrochar. Para ser tratado como um escritor de profissão, veja-se como um, deixe que isso transpareça. Não vai ser fácil, não tem glamour, terá dias bem tensos, mas acabará dando certo.
8. E por último, e o mais essencial. Nem todo mundo é escritor. Você pode ter muitos cursos de técnica, escrita criativa e por aí vai. Há uma centelha nos escritores que os destaca. Você pode ter uma técnica primorosa, mas vazia. Aquele que tem tendência para essa profissão é o que não consegue se conter no papel e se derrama, trazendo tudo que tem dentro dele para a trama, seja luz ou sombra. Aquele que se expõe e faz das palavras algo mais. E esses, os leitores sabem identificar. São os caras que amam isso e não desistem ou reclamam. Que passam Bienais sem comer o dia todo pelo simples fato de se sentir pleno em meio aos leitores. Aquele que abraça de verdade e não dá sorrisos ensaiados. O que não faz de si apenas um personagem, mas alguém próximo e real, que se vende com naturalidade, pois tem um tesão danado por aquilo que faz. Se espera da carreira fama e glamour, pare e mude agora mesmo. Vá ser político ou jogador de futebol, veja outras formas de ser rico, pois a coisa que mais tem na profissão de escritor é trabalho e satisfação. O dinheiro vem, mas tem muito suor e lágrimas no caminho. Agora é a questão: você está disposto a passar por isso?
Bom, gente, deixa eu parar por aqui senão deixo me levar pela empolgação do momento.
Espero que essas dicas possam ajudá-los a se firmarem na carreira de escritor como deve ser.

Tem perguntas, quer que eu fale sobre alguma pauta? Mande um e-mail no euleiobrasil@gmail.com, colocando no assunto Conversa nos Bastidores. Adorarei ajudar vocês.

Um abraço,
Danilo Barbosa