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Cada Livro Em Seu Lugar

Desde que eu me lembro como ser pensante, eu me vejo cercado de livros. Primeiro, como mundos a serem descobertos, depois como forma de dar vida as “vozes” que povoavam a minha cabeça – parece loucura, mas todo escritor é um pouco assim, se não der formas as palavras, corre o risco de se sufocar – e, nos últimos sete anos, completamente envolvido no mercado literário. Fui primeiro blogueiro, depois gestor de redes sociais de uma editora, marketing de outra, até que em abril do ano passado, decidi me dedicar ao agenciamento de autores e a escrita em tempo integral, tentando oferecer aos autores nacionais o que muitas vezes não se oferece. É muito trabalho, uma eterna dedicação, e ainda não é tarefa tão valorosa ainda, em um mercado em construção. Mas como sou brasileiro, forte, esperançoso e não desisto nunca, vamos batalhando para fazer o melhor para o painel da literatura nacional.
Mas, Danilo, porque está falando tudo isso? Primeiro porque na minha primeira vez aqui na coluna desbaratinei a falar e nem me apresentei direito. Segundo, porque quero usar esse canal com vocês para falar um pouco do que acontece nos bastidores, como se deve fazer para ter o seu livro em uma editora boa, com distribuição e o reconhecimento necessário. Através disso vou respondendo aqui algumas perguntas que surgem normalmente no meu dia a dia, tanto quanto escritor quanto agente. E espero que não tenham vergonha de perguntar o que quiserem. A sua dúvida pode ser a de várias outras pessoas.
E essa semana tive uma conversa interessante com uma escritora, sobre o caminho dos livros nas plataformas digitais. Eles se tornarem sucessos em plataformas como o Wattpad e a Amazon, por exemplo, é um fator decisivo para eles ingressarem em uma editora de destaque no mercado?

Tenho muita gente que me procura, que é best-seller no mercado digital, já se destacou nas mais diferentes listas, mas não consegue uma publicação chamada de “tradicional”, sem custos. Porque isso acontece?
Eu vou tentar explicar para vocês:
As duas ferramentas de publicação e divulgação que os autores mais utilizam para publicação digital é o Wattpad, a Amazon, e mais recentemente, o LuvBook.
Isso sem contar o surgimento de novos modos de contar histórias, as chat stories, que conta histórias de suspense e terror como se fossem uma conversa de WhastApp. A mais acessível para nós, no momento, é o Hooked, mas não tenho dúvidas de que surgirão mais plataformas para celular, mais completas. Bom, mas isso é assunto para outro dia.
A canadense Wattpad, apesar de alguns acharem que perdeu a força, possui um público grande de seguidores. Temos muitos autores excelentes nas plataformas, que merecem sem dúvida estar nas livrarias, mas as exceções persistem, como em toda rede: gente que não tem o cuidado que o leitor merece, apresentando um bom texto, com a devida revisão ortográfica e editoração da obra – em alguns casos uma segunda leitura resolveria. Outros escritores, pelo anonimato das redes, coloca temas polêmicos, como apologia ao estupro, violência e pedofilia em pauta; ou até mesmo plagiam outras obras publicadas. Cabe ao leitor sabe diferenciar isso e denunciar, já que ele é a principal voz dentro da plataforma. O Luvbook, a nossa versão brazuca deste tipo de publicação, tem tudo para ser uma versão 2.0 da plataforma, mas muitos leitores a autores ainda não aderiram à ela, como fizeram com sua antecessora. Espero que com o tempo isso melhore, causando uma boa disputa entre as duas. Afinal, cada melhora que eles fizerem para agradar os autores e o público será benéfico também para autores e leitores.
As duas funcionam de forma parecida. Livros publicados gratuitamente, em capítulos, como uma novela, para chamar a atenção dos leitores para a obra. Os textos normalmente não são curtos, e cada parte sempre termina com um gancho para que o público anseie pelo próximo episódio. Alguns livros, como The Lost Boys e O safado do 105 se tornaram verdadeiros fenômenos na plataforma. Mas se engana quem acha que apenas o romance e o hot funcionam por lá. Apesar desses serem os mais procurados, já que a maioria dos leitores brasileiros é composto pelas mulheres e o meio digital permite que elas leiam à vontade, sem serem julgadas pela capa e seu possível conteúdo, a busca pelo terror, fantasia e ficção estão se tornando cada vez maiores, já que, com o hábito crescente, vamos procurando por outros gêneros, ampliando os nossos horizontes; poucos se apegam a um determinado segmento da ficção e o leem o ano todo.
Quando este livro termina de ser publicado nas duas, na maioria dos casos a transição para a Amazon é automática. Conseguem colocar um livro de bom tamanho, com mais de 500 páginas, com preços módicos, chamando a atenção de quem já os leu no WattPad / LuvBook, mas quer ter a obra na íntegra em seu celular, Kindle ou notebook, e os que não tem paciência para ler o livro em fascículos, e ficar horas esperando o próximo capítulo, cheios de ansiedade. Querem devorar a obra na íntegra, a distância de um clique. Através do Kindle Direct Publishing, unido ao Kindle Unlimited, eles ganham até 75% do preço de capa, variando o valor posto pela obra, no caso de venda direta, ou por página lida, no caso de locação. No segundo quesito, deixar o livro na íntegra, como publicou na plataforma anterior é vantajoso, pois permite que ganhe ainda mais. Quanto maior a obra e mais lida – desde que seja mais de 20% – o autor aumenta o seu faturamento.
Mas tudo que é bom dura pouco, e aí começam os problemas. Para conseguir uma vaga na tão sonhada editora, o buraco é mais embaixo. Pois os números que conseguiu no mercado digital, mais uma análise de suas redes sociais mostra que você é vendável, que tem um público-alvo definido e garantido. Mas o que te favoreceu até agora se torna o seu maior inimigo.
O tamanho do seu livro.
Porque aquilo que o autor criou sem freios terá de ser revisto e retirado. Aquela que criou uma trama cheia de cenas de sexo conforme o desejo das suas leitoras vai ter de podar sem dó, casais paralelos retirados e problemas secundários; correndo o risco de, se não for bem trabalhado, se tornar um livro novo. Porque?
Porque é inviável, para uma editora, um livro de 400 a 700 páginas. Para produzir um livro de no máximo 300 páginas, com revisão, diagramação, capa e gráfica – falando em uma tiragem de 5 mil exemplares – a editora gasta no mínimo, uns 50 mil reais. E vende o livro por 30 reais, deixando uma porcentagem entre distribuidoras, livrarias e o autor. Imagina então se ele tivesse de fazer um título de mais de 500 páginas? Isso mesmo, o preço de venda seria impossível de muita gente adquirir. Aí a literatura, que é um direito de todo mundo, passa a se segmentar ainda mais. Compreendem o drama?
Sendo assim, se o seu foco for sair um dia por uma grande editora, continue trabalhando o digital e fazendo os seus números. Mas sempre tenha em foco uma obra para atingir o seu objetivo, com um texto bem trabalhado, sem excessos, entre 250 e 300 páginas. Autores de hot, pense bem na quantidade de cenas eróticas dentro do contexto da trama e faça cada uma ser mais intensa e inovadora em relação a outra, criando expectativa nos leitores. Eu, pessoalmente, gosto de 4 a 6 cenas em um livro, desde que sejam bem feitas e joguem a gente no meio da bagunça. E, por favor, nada de descrições de 10, 15 páginas em cada uma. Senão, depois de determinado tempo, acabamos pulando páginas, o que não é legal (assumo que já fiz isso várias vezes). Todos os gêneros são bem-vindos e procurados pelas editoras, e devem ser explorados. Temos o defeito de que, quando algo faz sucesso, exploramos ao máximo a mina, fazendo com que o povo se canse dele. Como foi o caso dos vampiros após Crepúsculo e do erótico BDSM após 50 tons. Dá para contar nos dedos os autores que firmaram o seu nome no mercado advindos dessas tendências que ainda permanecem.
O principal item em quesito é: o livro para o escritor é paixão, força, impulso. Mas ele deve ser visto como um produto, e trabalhado como tal. O atual mercado está se tornando cada vez mais afunilado e vai caber a você fazer a diferença para conseguir o seu lugar. Seja no textual, no gênero ou na forma que a obra é apresentada, a escolha é sua. E espero ter ajudado a cada um que me lê aqui a subir mais um degrauzinho na sua carreira literária.
E aí, o que acharam? Tem alguma pergunta que desejam que eu responda aqui na coluna? Deixem aqui nos comentários ou mandem um e-mail para a gente.

Abraços e até a próxima,

Danilo Barbosa