Indiscrições Cotidianas,

por Meredith Baker

Retrato de Meredith

Tenho pensado muito sobre a elegância da corte, já que as questões delicadas de minha saúde me concederam a terrível tarefa de ter que me contentar em analisar os transeuntes que, vez por outra, passam sob minha janela. Não que eles se quer notem minha presença, esse por sinal é um dos meus maiores divertimentos. Gosto de pensar que minha incapacidade momentânea me cobre com um véu de invisibilidade eficiente.
Mais do que em qualquer momento em que esteja entre seus membros num salão, num sarau ou no teatro, a verdade é que apreciá-los de forma tão analítica sem sequer notarem sua existência torna tudo mais interessante… Não acham?
Por exemplo, é estarrecedor que as jovens permaneçam tanto tempo com seus corpos moldados e atados a espartilhos, que os tornem diminutos e frágeis sob os olhos dos homens, quando estes veem apenas uma forma de se sentirem particularmente viris e com sua voluptuosidade aflorada sob suas barbas e bigodes hirsutezes. Sinto-me imensamente feliz que minha fragilidade nada tenha de elaborada, que seja puro reflexo de minha saúde delicada, a qual nem ouso criticar ou me veria presa às tais convenções,
que em absolutamente nada me deixaria mais saudável. Ainda assim, ouso assegurar a qualquer pretendente meu que tudo que vislumbra em minha tênue silhueta são dotes natos, sem quaisquer artifícios modernos como as famosas anquinhas. Asseguro-lhes que nada são além da profunda opulência herdada de meus pais. De fato, não penso poder exaltar uma estética perfeita, como a exigida na Europa, exceto pela pele pálida demais, que certamente não me agrada. Tenham sempre isso em mente.
Que tipo de mulher aborda esse assunto num vespertino? Talvez a que pretenda ser o escândalo da estação, mas não! Certamente, se me conhecessem, saberiam que estou longe disso. Muito distante de tudo isso, mas exatamente onde quero estar.
Orgulho-me, e muito, das mulheres – embora eu ainda seja jovem, é um termo mais adequado para alguém que possui um futuro nada promissor no ramo dos casamentos – que, como eu, adotem um tipo peculiar de vida. Gosto de pensar que os anos entrevados em uma cama fizeram de mim uma estudiosa, ainda que não científica, da essência do ser humano. As mulheres particularmente me chamam a atenção, em especial, tão recatadas e dissonantes do comportamento do homem, contritas em seus receptáculos diáfanos, distantes de tudo aquilo que lhes pode dar prazer… Quer seja o linguajar, a
aparência ou mesmo o próprio êxtase em si. E, ainda assim, sustentam para seus homens e a sociedade a ideia de que nada mais precisam além de serem admiradas e manipuladas como eles desejarem. Este é de longe o retrato que gosto de admirar, ou no qual me veja retratada.
Prefiro a vida mundana das letras, onde posso expor e criticar, e justamente por estar aqui, em meio a uma classe notoriamente deixada à margem, minimamente julgada. Afinal, é de se esperar que uma mulher que viva do quotidiano de outras não seja levada a sério…
Todavia, tenho certeza de que após minhas breves letras muitas tenham o impulso de queimarem seus espartilhos!

À lenha, senhoras!
Meredith Baker