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Indiscrições Quotidianas,

por Meredith Baker

Ainda sinto o doce ar da manhã adentrando acalorado pelos meus pulmões. Sinto-os mais leves e minha respiração é calma e controlada. Há dias não me sinto tão bem!

Mas não era, absolutamente, desta forma que pretendia começar essa coluna. Vim ao Passeio Público, meu lugar preferido de observação, principalmente quando encontro-me perfeitamente alocada no terraço, com vistas para o mar e tudo ao meu redor parece deveras calmo… É me dada a faculdade de pensar que, embora tendo sido feito por um paisagista destas próprias paragens, em nada perde para o estilo francês, ou mesmo inglês, por quem essa sua mais nova amiga matutina flerta invariavelmente.

Aqui, nas primeiras horas do dia, há certo movimento de homens que ainda brigam por uma sombra que acoberte seu sinuoso caminho de volta ao lar, mas devo avisar às mais ávidas por um falsete ou um diminuto escorregão que nada de indecoroso é permitido, mesmo que na colônia, sob qualquer luz do dia. Seja ela esplêndida em seus tons alaranjados, ou mais fria, quando se desbota no horizonte e deita-se sobre o mar, como sua amante…

Os amantes… Ontem mesmo, no sarau promovido pela Sra. Nísia Floresta Augusta, foi descortinado para essa sua colunista que o jovem Luís de Castro e Silva está mais do que inclinado a formar par com a Srta. Luísa Almeida, cujo doto é avaliado em muitos mil réis. Embora não me surpreenderia que o apreço do jovem seja mais pelo valor em si do dote do que pela dama, já que sabemos da grande dívida que contraiu para seu viscondado.

Posso dizer-lhe, entretanto, que mudam-se os ares, respira-se linho e laranjas, mas nada aqui se passa muito diferente do que nos salões ingleses. Lá, até mesmo, me perdendo dos assuntos políticos…

Disponho-me, contrita, a comentar que certo naturalista, de retorno ao Brasil, encontra-se no centro de muitas polêmicas. É redundante dizer que suas tendências abolicionistas sofreram grande avanço visionário no tempo passado em solo francês. Que, certamente, já se pode alegar, não foi dedicado somente ao seu aprimoramento em mineralogia. Todavia, pode ser cedo conjecturar que ele venha a ter papel de destaque na corte uma vez mais. Eu não me admiraria.

A pena me pesa entre os dedos e devo deixar meu posto de observação em busca da reserva do lar. Não posso, em momento algum, postergar meu tempo exposição às intempéries do Rio de Janeiro, mas eis que o vejo surgir em meio à alameda que o trará diretamente para mim. Não posso estar mais corada ou com a respiração facultativa. Sei que não há de reconhecer e nem saber quem sou, de fato, como todos que por mim passam… Mas finjo ser especial quando aqueles olhos azuis esbarram nos meus. São pequenos minutos e apenas um toque em sua cartola para que ele se sinta apto em partir. Seguir adiante por seu caminho.

Meu coração tamborila e se conforma com a resposta, e, assim, eu deponho minha pena por hoje, senhoras, senhores e senhoritas.

Até breve,

Merry

*Um texto de Roxane Norris

**Essa coluna é atualizada toda segunda feira