Por A. T. Sergio

“Quanto mais silêncio houver num livro, melhor ele é. Porque nos permite escrever o livro melhor, como leitor.” – António Lobo Antunes


Quando começamos a criar nossas histórias, pensando em dar ao leitor uma trama aderente, que o impeça de evitar virar à próxima página, imaginamos alguns pontos principais que invariavelmente referem-se a personagens, enredo, gênero, eventuais viradas, entre outros. Cada um tem a sua importância no contexto geral, mas todos precisarão de um pano de fundo, um cenário apropriado, criado para a obtenção da máxima interação entre o texto e quem mantém contato com sua leitura.

Nenhuma história consegue cativar se não for adequada às expectativas de quem a escolhe para ler. Fãs de literatura policial irão procurar pistas, linhas de investigação, possíveis armas de crimes, reações de testemunhas e suspeitos. Leitores de suspense, precisarão sentir cada cena, absorvendo sensações, aromas, sons, iluminação, na tentativa de antecipar o clímax. O terror deverá levar o leitor ao extremo, invocando medo de olhar em volta, de se saber sozinho, assustando com imagens sombrias, sugeridas em flashes rápidos e por vezes quase imperceptíveis até que sua intensidade seja inquietante e sua presença aterrorizante.

Há diversos caminhos a seguir em cada gênero, mas em todos os casos o autor deve respeitar o que de mais importante existe para a criação de um cenário envolvente e adequado à literatura de entretenimento: deixe o leitor imaginar a cena como se fizesse parte dela, sentindo cada aspecto do ambiente de maneira imersiva. Pincele poucos e importantes detalhes, mas permita que a imaginação de quem está em contato com o texto crie a cena por completo. Não descreva o “lápis amarelo e preto, com ponta quebrada, disposto em diagonal sobre o caderno pautado onde foram escritas as últimas palavras da vítima”. Apresente o momento como “no caderno barato, deixou uma última mensagem, marcada em lápis, antes de deixar essa vida”. A pessoa que está lendo deve ser livre para criar o mundo da história sob sua própria visão de vida e experiência, mantendo padronizado apenas o que é de suma importância para a composição do enredo e fechamento da trama.

Quantas vezes conversamos com outros leitores sobre determinado livro e percebemos que sua percepção sobre determinado objeto, personagem, local, foi totalmente diferente da nossa, sem que isso afetasse o sentido geral da história, levando-nos ao mesmo desfecho?

Parafraseando António Lobo Antunes, às vezes silenciar uma descrição é a melhor forma de tornar a leitura imersiva e apaixonante.

Escritor pernambucano, romancista, organizador e participante de antologias nos gêneros terror/suspense/mistério/policial. Entre seus trabalhos mais recentes há contos de terror em antologias das editoras Luva, Rouxinol, Lendari, Rico, Delirium, Constelação, além de obras independentes publicadas
diretamente na Amazon. Conselheiro da ABERST (Associação Brasileira de Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror).

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