20190301_074610

Por Elza Helena

“Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém  que explique e ninguém que não entenda”

No mês dedicado á mulher, gostaria de destacar Cecilia Meireles, entre muitas das mulheres que admiro, a meu ver uma artista completa, considerada uma das poetisas mais importantes do Brasil, além de ter sido educadora, jornalista, etnóloga, folclorista e desenhista.

Por seu amplo trabalho na literatura, recebeu vários prêmios e ficou reconhecida mundialmente, tendo suas obras traduzidas para vários idiomas. Além de ter escrito muitas poesias belíssimas, inclusive infantis o que aprecio bastante.

Sua contribuição à cultura brasileira através de uma série de desenhos e estudos realizados entre os anos de 1926 a 1934 revelou aspectos da cultura negra no século passado e ao conhecer esse trabalho fiquei encantada com a forma da poetisa não apenas expressar o seu interesse pela cultura como também tentou buscar no folclore caminhos para compreender os problemas sociais de um povo. Representando com esse trabalho um marco voltado para projetos que posteriormente seriam reconhecidos no desenvolvimento de iniciativas governamentais.

Nessa pesquisa ela reuniu uma variedade de imagens feitas em aquarela, nanquim e grafite sobre papel, com delicadeza e precisão, traços típicos da talentosa Cecília Meireles. em 1934, foi convidada para palestras e conferências em Lisboa, tendo a oportunidade de expor seus desenhos com o título de “Batuque, Samba e Macumba – Estudos de gestos e de Ritmos”, o que rendeu grande repercussão,
porém só veio ser conhecido no Brasil em forma impressa em 1983.

Nesses desenhos Cecília enfatiza as ciências sociais de maneira expressiva e elegante, reunindo e destacando na cultura popular dos negros brasileiros, suas manifestações religiosas, danças, gestos, roupas, adornos… Valorizando a importância de detalhes antes discriminados.

Um exemplo é o trecho em que ela fala: “Dentro do Carnaval carioca, inegavelmente licenciado e grosseiro, como em toda parte, na expansão das pessoas habitualmente civilizadas- o Carnaval dos negros guarda um aspecto único de respeito e elegância e, digamos mesmo, distinção artística espantosa. O que eles chamam ‘orgia’, palavra tão frequente nas canções de Carnaval dos últimos tempos, é a longa passeata com cantorias e luzes, estandarte e feras de papelão…”

20190301_072213 (1)

A poetisa associou muito bem em seus poemas a ideia da dança e do movimento.

Podemos perceber isso quando ela descreve: “Do batuque derivou-se, no Brasil, a escola de “capoeiragem”, que vem a ser uma espécie de “jiu-jitsu”, de efeitos muito mais extraordinários, na opinião dos entendidos… Os golpes que usam são apenas esboços, dando-se mesmo o caso de o bailarino equilibrar, com seus braços, o parceiro, no mesmo instante em que o desequilibra com o pé. Fica assim frustrada a queda, e o brinquedo continua. Por que a isso se chama na linguagem deles, ‘o brinquedo’”. Conseguiu assim construir uma ponte entre a sua pintura e as manifestações
musicais e poéticas, motivo pelo qual muitos de seus poemas foram transformados em canções.
Os traços, linhas e tons vibrantes presentes em seus desenhos, refletiam não apenas sua sensibilidade, mas sua visão do mundo.

Ninguém melhor que ela mesma para definir esse sentimento profundo:

“Aqui está minha vida.

Esta areia tão clara com desenhos de andar dedicados ao vento.

Aqui está minha voz,

esta concha vazia, sombra de som

curtindo seu próprio talento.

Aqui está minha dor,

este coral quebrado,

sobrevivendo ao seu patético momento.

Aqui está minha herança,

este mar solitário

que de um lado era amor e, de outro, esquecimento.”

Cecília Meireles.

Que a arte em todas as suas formas, inclusive a poesia seja valorizada a cada
dia, trazendo a nossa vida mais alegria. Elza Helena.

                                                                                                                                                                                      

fbaf03f0-08b4-4975-a5f0-a1506c4e527e

Elza Helena nasceu em Recife/PE. É professora, psicopedagoga e autora de histórias infantis, sendo apaixonada por esse universo encantador em que fluem imaginação e criatividade. Desde 2018 participa de antologias de contos e poesias para crianças.