Me lembro de uma vez em que, conversando com um amigo que fez o curso de Letras, havia me dito que não apreciava Agatha Christie pelo fato de ela escrever romances de mistério e policial. O curioso que eu não havia lido nada dela. No entanto até entendo a posição dele, em vista da forma como a literatura é estudada no curso de graduação. Acredito ser até forte usar o termo de que ao sair do curso, seus formandos são doutrinados apenas a apreciar a literatura clássica – aqueles livros que permeiam durante décadas e séculos, sendo referenciados por obras de representação absoluta na escrita de vanguarda.

Mas cheguei um dia a indagar: a escrita de vanguarda e de qualidade escolhe gênero? Com certeza não. Afianço esse assunto, pois eu confesso admirar os clássicos; aliás, o meu gosto pelos livros começou por eles, e então passei mesmo a ser exigente com o que leio. Literatura comercial feita só para vender aproveitando as modas como um veículo catalisador não me convence. Certos lançamentos fazem as pessoas caírem no conto do vigário. O que é difícil de explicar é que a maioria cai mesmo.  

Bom, mas voltando à Agatha Christie, acabei quase desistindo de conhecer sua obra por conta desse meu amigo e de uma doutora em literatura defender que a escrita dela não é artística, e que não seria um grande exemplo para mim, que buscava aspirar o ofício de escritor. Mais uma vez esse assunto me incomodava. Até hoje tento entender por que esse tipo de escrita é subestimado por alguns grupos. Deve ser só pelo fato de relatar mistério e por ser algo que todo mundo lê e assimila com mais facilidade. E me pergunto mais uma vez – será que era apenas isso? – Minha resposta: – Sim.

Intensifico que quase me deixei influenciar por esses grupos de “alto escalão” e que tudo “sabem” sobre livros bons. Diante de tudo que irei externar sobre a escrita de Agatha, acredito que os leitores que a admiram concordam comigo e sabem que sua literatura é de qualidade. Após o contato com o primeiro livro, não a larguei mais. Agatha Christie é um dos meus vícios.

Uma das coisas que mais admiro em Agatha não é só a magnitude dos crimes em si, mas sua força criativa de explorar o psicológico dos personagens. Ela destaca os problemas familiares e de relacionamento – as dificuldades que enfrentam para se manterem serenos e em equilíbrio.  Seus romances policiais não são vagos, muito pelo contrário; ela nos leva a uma atmosfera de loucura, paranoia, crises de ciúmes, com personagens bem construídos e próximos da realidade humana; ou seja, não eram artificiais ou rasos. Por isso é comum os detalhes que ela faz das características deles: seus vícios, medos, defeitos, e por que não as virtudes também. Tudo é muito arquitetado de forma minuciosa, abrangente e inteligente. Fico até aturdido com a forma eloquente e lúcida na qual expõe os pensamentos, relacionando o modo das pessoas viverem com os crimes. Não é à toa que é sucesso até hoje. Uma escritora definitivamente aclamada. Posso salientar que há sim algumas obras medianas, mas a maioria delas ela explora vários aspectos substancialmente, sempre com maestria e perfeição.

Minhas sugestões singulares de sua obra: O Assassinato de Roger Ackroyd, Os Elefantes Não Esquecem, O Caso dos Dez Negrinhos, A Casa Torta e Os Crimes ABC.

Biografia:

Maleno Maia nasceu em Santo Anastácio, interior de São Paulo e atualmente mora em Presidente Prudente – SP. É professor licenciado em Química, poeta, contista, romancista e colunista do blog Literanima.