AUTA DE SOUZA –

Por Margarete Prado

AUTA DE SOUZA – Essa poetisa nasceu em Macaíba, no Rio Grande
do Norte, em 12 de setembro de 1876. Assim como Maria Firmina dos Reis foi a nossa primeira grande romancista, Auta de Souza foi a primeira grande poetisa do Brasil. Numa época em que as mulheres eram educadas para casar, ter filhos, cuidar do lar e aprender costuras, bordados e tocar piano, Auta conseguiu estudar, ter livros e até escrever poemas.


Ela foi a primeira mulher a ter seus poemas conhecidos e consagrados
fora de seu estado natal. Seus poemas foram frequentemente incluídos nas
antologias e manuais de poesia das primeiras décadas do século XX, bem
como em livros didáticos da escola básica, de ensino de português e
linguagem. Escreveu poemas ultrarromânticos, seguindo o que era permitido às mulheres falar na época. Mulheres só podiam comentar em seus poemas sobre Deus, religiosidade, sobre a família, irmãos, amigas, noivo e o marido.


Jamais se poderia fazer um poema para o namorado, porque era um escândalo nacional. As moças “direitas” e recatadas somente escreviam sobre as temáticas consideradas convenientes para as mulheres. Ela assim fez e sua temática principal nos versos, girava em torno de religião, amor filial, e principalmente sobre a Morte. A morte trágica de seu irmão e a dela própria, que ao ter tuberculose muito nova, sabendo que estava preste a morrer e esperava a morte.


Escreveu também de forma sutil sobre sua frustração amorosa, pois se
apaixonou por João Leopoldo da Silva Loureiro, em 1895, mas seus irmãos
mais velhos foram contra por causa do estado de saúde dela e dele. O namoro durou um ano e Leopoldo morreu de tuberculose. Ela veio a falecer da mesma enfermidade, ainda muito jovem, em 07 de fevereiro de 1901.
Em 1900, um ano antes de sua morte, seu livro de poemas intitulado
Dálias, foi publicado por Olavo Bilac, com o nome de Horto, e o grande poeta parnasiano Bilac também prefaciou a obra. Abaixo trechos de um de seus mais belos poemas escritos ainda moribunda.

Ao Meu Anjo Bom

Dizem que a vida não é mais que um sonho,/
Meu Deus, quero sonhar/
Empresta -me, meu anjo bom, as tuas asas,/
Guarda no seio a minha fonte em brasas/
Ensina-me a rezar.
Vamos, vamos, além… foge comigo!
Procuremos bem longe um doce abrigo/
na Pátria dos Arcanjos.
A vida é um sonho e como um sonho passa/
Pois bem! Vamos viver no Céu da Graça /
Meu Deus, como dois anjos.
Quero fugir deste mundo tenebroso,
Labirinto de dores…
Mensageiro divino, vem comigo,
Quero sonhar, viver, sorrir contigo,
No Éden, há só flores! (…..)
Empresta-me, anjo bom, as tuas asas/
Sinto estalar-me o coração em brasas, cansado de chorar.
Assim voando pelo espaço em fora/
E vendo-te ao meu lado a toda hora/
Quero – fugindo deste mundo agreste,
Unida ao seio teu/ Embalada por ti, anjo celeste!
Buscar meu ninho pelo azul do Céu.

Sobre a autora

Mestre em Teoria Literária (1997 – UNICAMP); doutora em LETRAS (2005 – UFBA). Pesquisadora e coordenadora do NEGA – Núcleo de Estudos de Gênero na Amazônia (UFAC); revisora, antologista, tradutora e blogueira, membro da Academia Acreana de Letras, desde 2011. Páginas no Facebook: Academia Acreana de Letras, Comunidade das Letras Notívagas e Doramalândia. Livros publicados: Motivos de Mulher na Amazônia (2007); Vozes Femininas da Floresta (2009) e Cartilha de Gênero e Raça (2018) e participação em 02 Antologias da Editora Oito e Meio; 07 Antologias da Editora Illuminari e 08 da Editora RICO.