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Quando nasci um anjo esbelto,

desses que tocam trombeta, anunciou:

vai carregar bandeira.

Cargo muito pesado pra mulher,

esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os suberfúgios que me cabem,

sem precisar mentir.

Não sou tão feia que não posso casar,

acho o Rio de Janeiro uma beleza e

ora sim, ora não, creio em parto sem dor.

Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.

Inauguro linhagens, fundo reinos

– dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,

já a minha vontade de alegria,

sua raiz vai ao meu mil avô.

Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.

Mulher é desdobrável. Eu sou.

Adélia Prado: uma voz feminina

por Maleno Maia

O poema acima elucida bem a ideia da autora com relação a posição da mulher na sociedade. Tirado do livro Bagagem, é um dos mais conhecidos e estudados no meio artístico. Inclusive, já participei de um espetáculo que misturou a dança e o teatro, inspirado nos textos dela, no qual fui um dos declamadores. Posso dizer que foi o primeiro contato que tive com a autora, que acabou sendo vantajoso para que eu pudesse apreciar a poesia discursiva. Uma das figuras mais brilhantes e intensas dessa escola literária era uma mulher, o que tornou a minha admiração ainda maior. Eu até me emociono com histórias de mulheres que ultrapassaram barreiras. Toda mulher, em sã consciência, deveria agradecer às pioneiras do movimento. Infelizmente, vejo que muitas não se ajudam. No entanto, não é nesse assunto que quero parlamentar. Vou falar primordialmente desse belo texto.

A escolha desse tema coincide com o mês da mulher e o seu dia internacional, celebrado todo dia 8. Já vem de tempos que a mulher conquistou o seu espaço que nunca deveria ter sido subestimado. Hoje, a mulher tem direito à escolha, intrínseco a todo ser humano.

O texto em si, com algumas metáforas e analogias, reforça a conquista da mulher; no entanto, ele apresenta ao mesmo tempo, Adélia consciente de sua posição ainda demarcada por uma sociedade inerentemente masculina.

“Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou:vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher. Esta espécie ainda envergonhada”

O início do poema é como uma paródia de um texto de Drummond. O título expõe que ela pediu licença a ele (ao Drummond, do sexo masculino) para arquitetar a sua obra (do sexo feminino), já que a mulher era pouco representada por essa vertente. Ela enaltece a imagem de um anjo imperial, que poderia ser a voz de Drummond. Daí em diante o que ela escreve no poema foi motivado pelo imperativismo da trombeta do anjo, que anunciou a ela carregar bandeira; muitos aludem como sendo o poeta Manuel Bandeira. Eu já acredito que ela quis dizer que qualquer tipo de representação era só os homens que possuíam, por isso termina afirmando que se trata de cargo muito pesado, pois a mulher é “espécie envergonhada”, sem força e respaldo para a responsabilidade de ser poetisa e de carregar bandeiras. De forma geral, Adélia poderia ainda ressaltar ser pesado, no entanto para ela não era, óbvio.

“Aceito os suberfúgios que me cabem, sem precisar mentir.” Aqui acredito que Adélia se preocupou em deixar clara a sua imagem de mulher honesta, mesmo com estratagemas, não importando as dificuldades que passaria. Sim, ela era resiliente.

“Não sou tão feia que não posso casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.”  Esse trecho, para mim, é um dos que mais se aprofunda na questão. Até certa época a mulher tinha uma preocupação majoritária de se casar. O medo de ficar encalhada era temeroso, pois a sociedade cobrava que mulher benquista é aquela que faz um bom casamento. Ali ela diz com veemência também o ato de parir, esperando que ele seja sem dor, pois outra obrigatoriedade imposta era a gravidez, para perpetuar os herdeiros, concluindo que essa seria a sina dela. Essa parte do poema é fantástica.

“Inauguro linhagens, fundo reinos – dor não é amargura. Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô.”  A partir desse trecho, o texto ganha novos ares, e uma conduta diferente de Adélia. Talvez aqui ela queira exprimir que as dores serviram mais como aprendizado do que qualquer outra coisa, já que afirma intensamente que ela não é amargura. Adélia agora está calçada, sabendo onde pisa, levantando seus muros, sua casa, estabelecendo o seu reino e inaugurando algo que fará a diferença futuramente. Ao dizer que a tristeza não tem pedigree, confesso que essa parte me deixou encafifado; ou seja, sem o meu pleno entendimento; mas suponho que a tristeza dela não a deixou tão abalada ou amortecida, pois logo em seguida ela diz, com eloquência, da alegria, que, pelo que declarou, sobrepunha a tristeza. Aqui sua posição chega no ápice e na plenitude.

“Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou.” Aqui entendo como dicotomia entre homem e mulher. Ela parece acusar o homem de ser as vezes um ser instável, torto; contudo não institui isso como uma regra severa. Ser coxo é uma maldição pra homem, mas isso pode ser revertido. E diante de qualquer maldição, ela fecha com chave de ouro destacando que ela não se abate, não se dobra. Adélia é sim – desdobrável.