Saudade: sete letras que transmitem uma ideia quase paradoxal durante a existência humana. Todo mundo sente saudade de alguma forma. Seja de alguém. Às vezes de momentos. Outras de objetos. Sempre presente. E assim a vida segue o rumo, digamos assim. Já dizia o poeta que vos escreve: “saudade é a lembrança daquilo que ficou no passado.” Para muitos, motivo de nostalgia extrema. É a porta de embarque para a melancolia da alma. Já outros usam a saudade como combustível para continuar e manter as lembranças vivas. Nosso compatriota nascido em solo maranhense, Antônio Gonçalves Dias, conhecido popularmente por Gonçalves Dias, registrou a saudade num dos poemas líricos mais conhecidos do Brasil, Canção do exílio. Em vinte e quatro linhas, o poeta fala sobre saudade e solidão, principalmente. Dentre outros aspectos comuns ao nosso cotidiano. Segue texto para apreciação e logo após, continuamos a discorrer em nossas divagações.

Canção do exílio

Minha terra tem palmeiras, 
Onde canta o Sabiá; 
As aves, que aqui gorjeiam, 
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas, 
Nossas várzeas têm mais flores, 
Nossos bosques têm mais vida, 
Nossa vida mais amores.

Em  cismar, sozinho, à noite, 
Mais prazer eu encontro lá; 
Minha terra tem palmeiras, 
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores, 
Que tais não encontro eu cá; 
Em cismar – sozinho, à noite – 
Mais prazer eu encontro lá; 
Minha terra tem palmeiras, 
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra, 
Sem que eu volte para lá; 
Sem que disfrute os primores 
Que não encontro por cá; 
Sem qu’inda aviste as palmeiras, 
Onde canta o Sabiá. 

Gonçalves Dias estava estudando em Portugal quando escreveu grande parte de seu acervo literário, dentre eles está a Canção do exílio. Nele o poeta externa toda a sua saudade de seu país. Longe de casa e tudo que amava e, consequentemente, sentia falta. Notamos claramente que ele lembra perfeitamente com riquezas de detalhes sobre sua pátria. A saudade está descrita nos pequenos detalhes inclusive. Muitas vezes descrevemos a saudade apenas vivenciando grandes amores. Pessoas que marcaram nossa vida de tal forma que é praticamente palpável sentir sua ausência. Contudo, sentir saudade está também no cotidiano. Nos pequenos detalhes. Já nas primeiras linhas o texto retrata elementos da natureza que marcaram de forma afetiva a vida do poeta. Em mais de uma vez ele nos mostra estar sozinho, entenda-se por exilado, não encarcerado, e sim longe de sua terra, daquilo que lhe afaga o coração. Certamente ele estava cercado de pessoas, e até mesmo desenvolveu laços de amizade durante sua estadia no país luso. Mesmo assim, sentia falta da riqueza e de tudo que amava. Vale ressaltar que ele vai listando o que faz falta e está no Brasil e que não existe em Portugal. Já no final, o texto retrata um pedido extremo e urgente: “Não permita Deus que eu morra, sem que eu volte para lá.” Não diferente de nós quando sentimos saudade, Gonçalves tinha ardendo em seu peito o desejo de retornar e reviver tudo o que estava reservado pra ele nas terras tupiniquins. Contextualizando, o poema é o retrato de nossa geração. De uma forma diferente, assim podemos dizer. Há cento e setenta e dois anos, ele descrevia a saudade de um coração que estava distante geograficamente. Hoje, ele pode claramente descrever a solidão dos corações que estão nesta terra e não são capazes de enxergar nossas riquezas, nem tão pouco a beleza que há em viver.


Marlos Quintanilha é nascido em Itaboraí – RJ, formado em Administração e Pedagogia Cristã. Publicado nas editoras Andross, Rico, Porto da Lenha, Darda, Autores Independentes e Amazon. Idealizador do projeto Contos Coletivos, publicados semanalmente no blog Contos Coletivos e membro da ABERST.