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“Quase todos acham que eu sou normal; mal sabem que posso ser um psicopata hibernado, à espreita de um disparo do gatilho da psicose reversa” – Odlinor Otnemicsan

Por Mhorgana Alessandra

A psicopatia, sob o olhar contemporâneo, é caracterizada por uma representação da maldade humana. O conceito “psicopatia” é proveniente do século XIX, quando o médico francês Philippe Pinel desenvolveu o conceito “manie sans délire” – mania sem delírio, ao descrever os indivíduos com comportamentos que não continham restrições morais. O termo é de etiologia grega, “psyché” – alma e “path” – paixão / sofrimento, que pela sua gênese: nos leva ao mundo do “sofrimento da alma”.

Nem todo psicopata mata, e nem todo sujeito que mata é um psicopata. O psicopata decide intelectualmente, porque não experimenta o critério moral. A psicopatia, vista sob o olhar do senso comum, é uma visão estigmatizada: são cruéis, sem empatia, e, obviamente, matam. Contudo, uma aprimorada visão da psicopatia conferida pela psicologia considera que, além do ato de matar, há uma história, caracterizações e detalhes. O psicopata estuda a sua presa, e não apenas a captura. Existe um padrão que sua mente planeja e vai de encontro ao objeto de desejo. O psicopata é um sujeito amoral, incapaz de incorporar valores ou retirar proveito do processo da convivência e da socialização, direcionando sua ação de acordo com o prazer imediato. Ele consegue capturar com uma grande habilidade as necessidades do outro através de sua sedução, e a sua maldade se pronuncia a partir da sua inteligência aplicada em busca de benefícios pessoais.

A literatura pode ajudar na compreensão humana e, nessa temática, um psicopata pode ser um homem que mata friamente, ou um poderoso empresário que sente realização em agir sem escrúpulos. Sartre em Entre Quatro Paredes afirma que “o inferno são os outros”, contudo, em uma análise junguiana: “o inferno não são os outros, somos nós mesmos”. Assim, como o homem pode ser seu paraíso, pode ser seu próprio inferno. Talvez caiba dizer que o homem é seu próprio demônio e por isso o mal que se “apossa” do mesmo não advém de fontes externas, mas é inerente à sua personalidade.

A característica intelectual presente na psicopatia é exemplificada através de personagens ficcionais: Amy Dunne, Hannibal Lecter, Dr. Jekyll, Norman Bates, entre outros; sendo personagens cuja inteligência é extremamente aguçada. Eles sempre aparecem como assassinos em série, assediadores, agressores sexuais de sangue frio e vigaristas. Deve-se sublinhar que os estereótipos da literatura tendem a retratar os psicopatas em extremos e classificá-los como serial killers, característica que não está ligada diretamente à um transtorno psiquiátrico como a psicopatia. As vítimas de um serial killer possuem o mesmo perfil e é justamente a sequência dos crimes e o espaço de tempo entre suas vítimas que o diferenciam de outros tipos de assassinos.

Segundo a escritora Rô Mierling, autora do Livro Diário de Uma Escrava: “existem dois tipos de psicopatas: os naturais, que nascem sem pudor e empatia, e os ambientais, que são torturados ou criados em ambientes nocivos. Esses podem, ou não, aplicar em outros o que lhes foi aplicado, como forma de alivio. Esse tipo é controlável com apoio e terapia. Já o primeiro tipo, é fadado a psicopatia e criminalidade”. Ela completa: “que acredita que seu livro é um sucesso, pois retrata detalhes que as pessoas não querem saber, mas que geram curiosidade, desprezo e medo; e isso sempre gera polêmica, que por sua vez, aumenta a popularidade de uma obra literária.”

Mhorgana, por RêVeurs Photographie e Art (218)Mhorgana Alessandra, mineira, é psicóloga e escritora. Diretora da Anima, ministra palestras e consultorias sobre diversos temas do comportamento humano. Casada, mãe de duas lindas meninas, participa como autora e organizadora em antologias pela Editora Illuminare. É idealizadora do blog literário Literanima e membro da Associação Brasileira de Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror (Aberst).