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Por Maleno Maia

Qual a função da literatura em nossas vidas? De que forma ela pode influenciar o nosso modo de viver e ver o mundo? Obviamente ela tem um poder e um valor que transcendem os limites de nosso conhecimento. Ela é, pelo meu ponto de vista, o segmento artístico que traz, enlaça e abraça todos os outros: mais acentuadamente a música, que precisa de uma construção poética que a conduz, por isso está aí o papel do compositor, que enlaça a poesia na melodia.

Levando em consideração o exemplo acima, constatamos que podemos usar a literatura como forma livre de empregar assuntos de longo alcance, para formar e informar o leitor. E quando discorremos sobre temas com a pretensão de alertar, ou de querer provar um fato que a maioria ou toda a sociedade só conhece um lado, pois o restante foi dirimido por questões políticas, de interesses pessoais, econômicos ou sociais, podemos chamar isso de denúncia. Quando travamos assuntos, por meio de grande argumentação, buscando esclarecer acontecimentos desconhecidos do grande público, mas que causaram ampla repercussão, estaríamos arriscando ser denunciantes. A denúncia em si se pauta em colocar em evidência algo que se conquistou por uns, mas com o prejuízo de outros.

Na ficção, vou citar o exemplo de um autor que relata, até com cargas de ironia, a época dos bandeirantes e desbravadores de terras. Hoje no país, incontestavelmente, cidades grandes e importantes não existiriam se não fosse a intromissão desses homens que invadiram regiões, devastaram matas e exterminaram incontáveis tribos indígenas. Já me deparei com livros desse teor, contando o nascimento de uma cidade que resvalou com tanta tragédia e carnificina. A história dos referidos livros, porém, focou no âmbito da denúncia por transferir o sentimento de lamento e remorso pelo que foi transgredido e destruído para alimentar a ganância humana atrás de riquezas e desenvolvimento econômico. Os parâmetros inseridos nessas obras incutiram na defesa do índio e das matas, e não na história propriamente dita do desbravamento. A ironia seria que os líderes dessas “emboscadas” acabaram recebendo honrarias e grandes construções em suas homenagens.

Outro grande exemplo que pode ser citado foi o lançamento do livro “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo, que trouxe um inédito realismo extremo, influenciado pelo cientificismo e o positivismo em voga na época; essa mistura se denominou de Naturalismo. Essa escola literária passou a desvelar um lado do Brasil sem o culto de um país de beleza natural, mas sim de sujeira e mazelas. O crescimento do capitalismo era evidente e parecia bom, mas para isso a exploração dos menos favorecidos foi crucial diante das inúmeras estalagens que passaram a fervilhar no Rio de Janeiro. O livro era muito mais que uma denúncia, mas sim uma crítica dura e ferrenha do sistema da época, das ações de exploração, dos sentimentos de hipocrisia, inveja e de buscar méritos sem se importar com os prejuízos das outras pessoas.

A humanidade às vezes fecha os olhos para muitos assuntos. Nem sempre está preparada para deglutir e entender o que está longe do seu alcance. A denúncia usada na literatura pode refletir muito do nosso dia-a-dia, até quando negligenciamos e colocamos de lado coisas que estão a nossa frente, mas fingimos não enxergar.

A literatura também tem forte papel político e social, e de mostrar uma realidade que é cruel para muitos. O autor engajado quer passar o que pensa e a denúncia social é o principal veículo. Em “O Cortiço”, nos deparamos com a dualidade, que assume e revela o contraste de classes.

 

Maleno Maia nasceu em Santo Anastácio, interior de São Paulo e atualmente mora em Presidente Prudente – SP. É professor licenciado em Química, poeta, contista, romancista e colunista do blog Literanima.