2019-03-13-A. T. Sergio - A liberdade fundamental na escrita

“Dentro ou fora de mim, todos os dias acontece algo que me surpreende, algo que me comove, desde a possibilidade do impossível a todos os sonhos e ilusões. É essa a matéria da minha escrita, por isso escrevo e por isso me sinto tão bem a escrever o que sinto.”

José Saramago

por A. T. Sergio

Escrever é, acima de tudo, um processo catártico. É a maneira estética de colocar para fora o que está pressionando mente e coração. Não foi à toa que meu primeiro contato com a escrita ocorreu na estrutura de um soneto. Ainda apegado à forma, mas vertendo um subjetivismo exacerbado, coloquei no papel o que precisava que explodisse para não me asfixiar. Anos depois, parti para a prosa, um aspecto mais objetivo de apresentar ideias e emoções, como o caminho para mostrar as trevas que eu precisava expurgar. Contos sombrios, angústia, terror nas entrelinhas, histórias que eram necessárias sobre temas que invariavelmente envolviam situações não naturais. E minha alma, mais uma vez agradeceu a libertação.

Mas os extremos não são excludentes e precisam um do outro para manter o equilíbrio e não tirar o escritor do prumo. E entre os limites, há um caminho com inúmeras bifurcações para percorrer, contendo situações cotidianas, sentimentos e emoções que podem atingir quem escreve, provocando o nascimento de uma união de palavras. O que elas irão compor está fora do controle do autor, um mero canalizador desse conjunto de experiências de seu universo pessoal e íntimo.

Quando o escritor está livre, sem prazos, metas ou temas fixos para um trabalho específico, ele não tem como saber para onde sua mente o levará. Seus dedos batem no teclado ou seguram a caneta, sem controle, sem rumo, e deixam que o que é preciso naquele instante saia e fique registrado. São incontáveis os casos de revisões posteriores que levaram o autor a se perguntar se ele foi o verdadeiro responsável pelo texto.

Escritores profissionais mantém hábitos que envolvem técnicas para aprimorar a escrita e seu processo. Planejamento, estruturação de capítulos, fichas com perfis de protagonistas, metas de quantidade de palavras, entre outros pontos, servem para tentar dar rumo ao que será apresentado ao leitor. A tentativa é nobre e merece ser exaltada, mas o que determina o que será escrito não pode ser contido ou direcionado. É a catarse pura, crua, que se manifesta e dá vida ao conjunto de símbolos que de outra forma nasceria sem sentido.

O porquê de escrever deve prevalecer sobre o que e como escrever. Se não for assim, não há razão em tentar demonstrar uma emoção vazia, narrando o que não se vive ou experimenta. O texto resultante não mente e não omite. Ele será verdadeiro para o bem ou para o mal de seu autor.

Nas próximas colunas, continuaremos a abordagem sobre a origem da escrita, tentando chegar ao ponto de onde nascem os livros. Vamos juntos?

 

                                                                                                                                             

Escritor pernambucano, romancista, organizador e Euparticipante de antologias nos gêneros terror/suspense/mistério/policial.

Entre seus trabalhos mais recentes há contos de terror em antologias das editoras Luva, Lendari, Rico, Delirium, Constelação, além de obras independentes publicadas diretamente na Amazon.

Conselheiro da ABERST (Associação Brasileira de Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror).