Origem:

por Danilo Barbos

Há alguns dias, ao fazer uma live para a Rico Editora, surgiu no ar uma pergunta que só veio repercutir em mim algum tempo depois… Ao ver as letras, ordenadas na tela do celular, formando a dúbia frase, assumo que por um momento pensei no que diabos ele – o dono da questão – queria dizer com aquilo, mas depois o sorriso me assomou os lábios, pois acabei me divertindo com aquele questionamento.

“Você acha que todos os autores são loucos?”

Posso me equivocar se estou utilizando a verborragia completa dos sinônimos, ordem a ordem, mas o sentido, juro, permanece o mesmo. Muitos de vocês vão perguntar o sentido de tal indagação, outros verão tal frase com desmesurada incredulidade, mas assim foram os fatos, pelo menos como me lembro. Só assumo não recordar bem sobre a resposta dada, já que as linhas corriam e o tempo era curto para responder a tudo… Mas ali foi plantada uma ligeira semente, que não dormitou ou ficou esquecida… Tomou sim rumos fortes, fincou raízes no meu cerne e me chacoalhou a cabeça, agitando e desordenando os pensamentos.

Ou seja, peguei-me a indagar ao vento – ou melhor, jogar no papel, pois autor só consegue desvencilhar os nós mentais depois que os transforma em verbo – o porque de surgir tal indagação.

Sabemos que escrever é um ato intenso e nada fácil. Para isso, o escritor – além da técnica e dos estudos – tem de carregar o coração na ponta dos dedos, despir-se das defesas e se conectar com o mundo que o rodeia. Parece brincadeira, mas somos quase como um bando de avatares – não o desenho, mas os gigantes azulões – conectando a nossa vontade e desejo com os leitores, construindo mais que textos, mas sonhos realizados, tramas nas quais eles devem se identificar e sair da realidade que se torna cada vez mais apertada e opressora.

Um autor é a voz do seu tempo… Através dos romances, dramas, comédias ou, até mesmo nas histórias de horror, criticamos e exaltamos o universo em que vivemos. Não só as dores privadas, a que carregamos em nossos compêndios particulares, mas a do vizinho, do cachorro, do tio, da avó, do papagaio. Por isso parecemos loucos, intensos, ou vivazes demais… Porque sentimos demais, choramos em excesso, rimos como se mil vozes povoassem as nossas gargantas. Somos seres ocupados por milhares de entidades, querendo tornar-se reais, fazer-se presentes, viver através dos olhos dos leitores… Inúmeras e repetidas vezes.

Pareço louco, não é mesmo? Mas aos olhos do escritor, louco é quem a maioria considera ser, capaz de deixar livros belos e feios perecerem nas mentes por mero medo de tentar. Quantas vezes deixamos de lado amigos, familiares, festas e amores, os olhos até embaçados diante da máquina, como que possuídos por uma força que não conseguimos controlar? Ou despertamos de madrugada porque determinado personagem nos desperta, querendo fazer uma confissão solitária?

Se nos recusamos a escrever, adoecemos. Acumulamos sentidos e sentimentos, ficamos entupidos e sufocados pelas palavras inauditas. Quando ficamos bloqueados então? Passa a ser um tormento diário, que nos faz verter lágrimas de frustração. Mas nunca deixar de flertar com as possibilidades. Mesmo que não seja um romance… Um texto, talvez… Uma crônica, como essa que corre pelos meus dedos, ordenando-se para vocês. Algo que nos faça ver que ainda sentimos, que não precisamos entorpecer o corpo com compulsões já que se torna impossível lutar contra a inoperância da criatividade mental… Resta-nos reconectar com o mundo aos poucos, sem excessos para não perder o juízo como os verdadeiros loucos, aqueles que deixaram de sonhar, capazes de utilizar as palavras para ofender, perjurar e inferiorizar aqueles que deveriam receber palavras de igualdade, afeto e apoio.

Será que ao reler tudo isso, eu – ou você – ainda achará que a literatura pertence aos loucos? Penso que ela pertence, na verdade, aos despertos. Aqueles que buscam dar voz e sentido a tudo, tentando assim dar um sentido, através da ficção – ou não – àquilo que muitos olhos não podem – ou se recusam a ver. E se isto nos torna insanos, que seja… Vivemos, então. E que sejam dadas as palavras aos loucos por inspiração, não por poder ou outras coisas materiais ou limitadas. Pois somente a nós, como artistas, doadores, abnegados e empáticos, sobrevirá um amanhã melhor.