Por Josy Stoque

Nunca me esqueço do choque de realidade que sofri ao aprender as escolas literárias no ensino médio e como isso afetou positivamente a minha vida. até então, a leitura para mim tinha passado de uma obrigação escolar para um prazer sem par, e um escape da realidade. Foi com o mestre Machado de Assis que entendi que a literatura é feita para acender o senso crítico, estimular a interpretação de texto e nos colocar contextualmente na História.

A diferença entre uma boa aula e uma ruim está exatamente em despertar a mente do aluno para reconhecer a si mesmo em sociedade, sua importância e seu papel quanto cidadão. As Ciências Sociais existem para estimular o pensamento a fim de sabermos diferenciar o que é real do que é ficção. Ao falarmos de História, por exemplo, superficialmente, jogando informações e datas acima do contexto e da interpretação do momento histórico, criamos robôs condicionados a absorver o que é dito, sem capacidade intelectual de filtrar conteúdo.

Além de tornar cidadãos em não questionadores de seus superiores e governantes, que não sabem o mínimo sobre seus direitos, muito menos votar, na era da informação rápida e abundante e da democratização através das mídias sociais, criamos também monstros engolidores de uma verdade relativizada e cuspidores de mentiras.

“Se chegou ao meu Whatsapp, é verdade.”

“Se está no YouTube só pode ser fato.”

A virulência de notícias falsas é assustadora, principalmente pelo conteúdo absurdo e sensacionalista que propaga. Como combater a mentira travestida de verdade, ou meia verdade, ou ainda opinião em uma democracia, que preza pela liberdade de expressão acima de tudo? Muito simples: com bom senso, usando dos princípios básicos do pensamento crítico: ler, interpretar e questionar. Para isso é preciso também de fontes fidedignas. Como diferenciar com tantos resultados apresentados em uma busca?

Aqui abro um parêntese para defender a liberdade de expressão, o direito a opinião e as mídias sociais. Eles não têm culpa. Nós somos responsáveis por usarmos boas ferramentas de informação em massa indiscriminadamente, sem antes pesquisar, confirmar e pensar sobre o assunto postado ou a ser comentado e/ou compartilhado. Longe de mim censurar qualquer usuário, peço bom senso apenas. A verdade é que nem tudo é passível de opinião, principalmente em se tratando de um assunto que não dominamos. O problema da democratização da informação nessa nova era é que os especialistas e estudiosos passaram a serem rejeitados em detrimento do fulano, que tem milhões de seguidores, mesmo sem especialização alguma. Agora todo mundo é especialista em todos os assuntos.

Outro gravíssimo problema causado por essa onda digital informativa e opinativa é o preconceito disfarçado de opinião. Aqui entro no ponto mais delicado da questão. A “minha” verdade passa a estar acima da verdade do outro, tolindo o conceito social pouquíssimo usado nas mídias sociais: a empatia. É certo que existem verdade individuais incontestáveis, tanto quanto fatos históricos e científicos comprovados, porque são embasadas em vivências particulares, mas isso não pode nos tornar julgadores da vida alheia e propagadores gratuitos de achismos, ódio e intolerância. A sua liberdade acaba onde a do outro começa.

Como aprendi na literatura, a sociedade é feita da História de seu povo, dos mandos e desmandos governamentais e, principalmente, de aprendizados em meio às tragédias. Elas nos ensinam que caminhos não tomarmos porque já vimos o seu final e mesmo em que devemos melhorar como civilização. A internet possui a facilidade do anonimato, que dá coragem e força às pessoas com ideias radicais, perigosas e genocidas. É imprescindível que controlemos os nossos dedos e que escolhamos palavras menos agressivas para lidarmos com o próximo. Nenhuma verdade individual é absoluta. Pode ser para você, mas não para mim. Respeito é fundamental.

E respeito também para quem estudou e sabe exatamente do que está falando, principalmente em se tratando de políticas públicas de bem-estar social, de segurança, saúde, educação e economia, ou áreas que exigem expertise. Todo mundo segue livre para fazer suas escolhas individuais, o que não dá o direito de impô-las aos demais, baseado em sua opinião particular, vivência social ou religião. O que é crime deve ser investigado pela Justiça e punido de acordo com a Constituição Federal, nossa lei máxima sob a qual todos são submetidos, não importa o status social.

Como defensora da democracia, sou a favor do debate de ideias embasadas, realizado com cordialidade, ponderação e troca justa. O objetivo deve ser somar informação e não subtrair. No século das doenças psicossomáticas, como estresse, ansiedade e depressão, o saber lidar com o próximo se tornou não só educação, como também uma necessidade básica. Talvez, se usássemos a máxima “não faça com o outro o que não gostaria que fizessem com você” as coisas mudassem para melhor.

Mas, enquanto continuarmos a deturpar a verdade em proveito próprio, a informação a fim de manipulação em massa e a opinião para ferir o próximo, sinto dizer que os suicídios continuarão aumentando, assim como a violência disseminada pelo ódio, pela intolerância e pelas diferenças. Em um país com mais de 200 milhões de habitantes, nas mais diversas condições financeiras e sociais, é preciso furar a bolha e conhecer o outro país dentro do Brasil que ainda não conhecemos pessoalmente para compreender a complexidade de nossa grande nação. Como fazemos isso? Ouvindo o que o outro tem a dizer sobre a sua realidade.

Quando começarmos a usar as mídias sociais para o que foram criadas, que nada mais é do que democratizar a voz de todos, independente do nível cultural e social, com todo o respeito que o ser humano merece, aí sim estaremos usufruindo o nosso direito civil e constitucional de liberdade de expressão.

Infelizmente, estamos muito longe disso no momento.

Josy Stoque é jornalista e escritora.
Autora de mais de 20 livros.

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