por Mhorgana Alessandra


A Bruxa surgiu à janela da sua casa, como à boca de uma fornalha acesa. Estava horrível; nunca fora tão bruxa. O seu moreno trigueiro, de cabocla velha, reluzia que nem metal em brasa; a sua crina preta, desgrenhada, escorrida e abundante como as éguas selvagens, dava-lhe um caráter fantástico de fúria saída do inferno. E ela ria-se, ébria de satisfação, sem sentir as queimaduras e as feridas, vitoriosa no meio daquela orgia de fogo, com que ultimamente vivia a sonhar em segredo a sua alma extravagante de maluca. Ia atirar-se cá para fora, quando se ouviu estalar o madeiramento da casa incendiada, que abateu rapidamente, sepultando a louca num montão de brasas”. – Aluísio Azevedo / O Cortiço

A bruxaria, a malignidade e a ligação com o demônio sempre foram alvos do imaginário e da literatura. A História conduziu as bruxas às fogueiras inquisitoriais, já a literatura se apropriou dessa imagem na composição de personagens que permeiam textos pertencentes aos mais diversos gêneros. O arquétipo da bruxa tem origem em antigas religiões matriarcais, em que se venera a Deusa, a Grande Mãe, que tanto pode doar vida, como tirá-la. Há inúmeros exemplos em variadas mitologias e escritos diversos: Hécate, Inanna, Ishtar, Astarté, Ceridwen, dentre outras.

Personagens praticantes de magia aparecem na literatura desde os primórdios. Feiticeiros e feiticeiras já andavam às voltas com palavras de poder, encantamentos, vassouras e caldeirões nos mitos e nos contos de fadas. As narrativas ancestrais que deram origem à muitas das histórias que lemos nos livros de hoje, tiveram sua raiz na antiga cultura pagã e foram adaptadas de acordo com os interesses dos autores.

Embora nas histórias antigas, os bruxos e bruxas tenham sido retratados com frequência como personagens malignos, nem sempre isso aconteceu. Bem antes da ideia do Mago do Mal e do Mago do Bem ser personificada em Voldemort / Dumbledore, e apesar de bruxas como a madrasta de Branca de Neve dos Irmãos Grimm, encontramos também magos benignos como Merlin nas Lendas Arthurianas ou Gandalf na obra de J. R. R.Tolkien.

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“Musa da Noite, o Sabbath das Bruxas” / Luis Ricardo Falero (1880)

A palavra bruxa vem do verbo italiano bruciare, que significa queimar. Na Inquisição muitas mulheres foram literalmente inflamadas pelos seus desafetos. É muito popularizada a imagem da bruxa como a de uma mulher sentada sobre uma vassoura voadora. Alguns autores utilizam o termo, contudo, para designar as mulheres sábias, detentoras de conhecimentos sobre a natureza e, possivelmente, magia.

A literatura responde à ideia da simbologia do fogo como elemento purificador. O estereótipo com a figura da bruxa metaforiza a separação que o “bem” tenta manter do mal. Daí o castigo aplicado às bruxas seria quase sempre, a morte na fogueira. Nessa instância, o fogo purificaria não só a alma que se “perdera”, como também o próprio ambiente, como uma forma de extirpação do mal na comunidade.

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“A feiticeira”/  Georges Merle (1883)


Algumas bruxas adquiriram notoriedade e são bastante populares na literatura de ficção, como nos livros da série Harry Potter de J. K. Rowling, nas Brumas de Avalon de Marion Zimmer ou a trilogia sobre as bruxas Mayfair, de Anne Rice. Na literatura medieval, uma das mais importantes obras relativas à feitiçaria, relata a história do mago Merlin e da bruxa Morgana. Na Renascença, em Shakespeare, mais especificamente em Macbeth, irá se demonstrar a imagem da bruxa com certos contornos sombrios. Nessa peça as feiticeiras aparecem em meio a trovões, relâmpagos e chuva, em um pântano.

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, pessoas em pé, nuvem, céu e atividades ao ar livre

“Três bruxas (cena de Macbeth) / William Rimmer (1850)

Já no século XIX, há um resgate da figura da bruxa na literatura, com os contos dos irmãos Grimm, que também aparecem em outras classes artísticas, como é o caso da pintura de Francisco de Goya, como a famosa “O Sabat das Feiticeiras”. Ainda assim, foi nos contos de fada, onde a bruxa maléfica se estabeleceu: desdentadas, possuidoras de narizes aquilinos e unhas grandes, trajando preto, verruga ao lado do nariz ou no canto da boca, sendo essa a personificação da bruxa em inúmeros contos infantis. O estereótipo da bruxa encontrará raiz não só literatura, mas também em outras mídias, permanecendo, dessa forma, no imaginário coletivo.

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“Goya, El Aquelarre, o Sabat das bruxas” (1823)

A bruxaria na literatura brasileira traz à tona, elementos históricos e um imaginário que foi construído ao longo de séculos. Os elementos do real e do sobrenatural se cruzam, mostrando muitas vezes, textos com dupla interpretação e mensagens veladas. Ainda temos textos que criticamente se enquadram na estética realista, como no O Cortiço de Aluísio Azevedo.

Não podemos deixar de falar sobre a conexão entre literatura e bruxaria, que foi parte importante da mitologia de Clarice Lispector: uma obra profunda e respirando paixão. Associada à magia, a autora chegou a ser convidada para um congresso de bruxaria em Bogotá, em 1975, porque viam em sua obra uma configuração mística. No congresso ela não falou de magia, mas de literatura, corroborando a ideia de Otto Lara Rezende que acerca de sua obra declarou: “Não se trata de literatura, mas de bruxaria.”

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“Medeia, a Feiticeira” /  Valentine Cameron Prinsep (1880)

Luiz Asp, escritor e membro da Aberst, atualmente escreve um livro inspirado no tema, e a ideia nasceu de um sonho que teve. Para ele: “escrever ficção com elementos sobrenaturais, aquilo que toca o real precisa ter os dois pés na terra”.  Em sua história atual, inspirada nas bruxas, leu livros, monografias e artigos de antropologia, história e ciência das religiões tratando das religiões neo-pagãs no século XX.  Segundo ele: “Não queria retratar nenhuma religião de bruxas em especial, mas criar algo em que pudessem se reconhecer e sentir-se respeitadas.  Por outro lado, aspectos importantes para as religiões neo-pagãs que pesquisei são retratados no texto, como a relação de unidade com a Natureza e o convite a uma liberdade pessoal consciente. Eu não escrevi o livro para vender esses valores, mas eles estão lá, como parte das personagens retratadas, pois são valores que admiro e com os quais me identifico”.

Em um mundo em que pessoas e instituições, embasadas nas leis dos homens ou em escrituras ditas sagradas, ainda queimam livros, e seus autores são execrados por parte da população que abençoa a censura, e aceitam a tortura e o terrorismo, com certeza aplaudiriam a execução pública de praticantes de magia e bruxaria ou quaisquer práticas que eles julguem como tais. Nesse momento de extremos, é mais do que importante discutir os arquétipos e as noções de Bem e Mal presentes na literatura, suas implicações na sociedade como um todo, e na egrégora negativa que poderá ser criada, sem que haja volta e retorno à sanidade.

Sobre a autora:

Mhorgana Alessandra, mineira, é psicóloga, blogueira e escritora. Diretora da Anima, ministra palestras e consultorias sobre diversos temas do comportamento humano. Casada, mãe de duas lindas meninas, participa como autora e organizadora em diversas antologias. É idealizadora do blog literário Literanima e membro da Associação Brasileira de Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror (Aberst) e do Projeto A Arte do Terror.