Vamos Enfeitar O Pavão? 

por Danilo Barbosa

pavão

Bom, decidi ser escritor.
Ponto. Simples.
Não quero ser médico, arquiteto ou engenheiro. Estou disposto a criar um cronograma, um planejamento de trabalho e escrever com afinco e regularmente. Defini a minha estratégia e o meu público-alvo. Fiz um rascunho das histórias que vou escrever e agora é só começar.
E tenho certeza de que serei um sucesso de vendas em meses…
Opa, quem te disse isso?!
Vamos com calma, minha gente. Estar disposto a escrever e seguir todas as etapas mencionadas anteriormente ainda não transformam você em um escritor, muito menos num famoso. Muita gente pensa que é só criar algo, sem cuidado nenhum, e soltar para o mundo. É um tiro no pé. Com isso, acaba-se
criando uma geração de escritores rasos, sem conhecimento de como publicar um bom livro, pelo menos.

Me canso de ver por aí erros ortográficos crassos, falhas de continuidade grotescas e incoerências que você fica de boca aberta, sem acreditar que está lendo aquilo. Coisas como carruagens luxuosas correndo pelo deserto de areia sem afundar, arrepios que sobem da nuca ao calcanhar ou cenas sensuais em que surgem três mãos ou seis pernas… Tudo isso está por aí, sendo distribuído pelo comércio on-line de livros. Isso sem falar nos escritores que optam por chamar a atenção através de histórias com celebridades, como um livro erótico com o Japonês da Federal ou cenas de pedofilia ou zoofilia – existe uma série de livros digitais com sexo e dinossauros, pode acreditar.
Outro erro fatal que os escritores, principalmente no início de carreira cometem, é a desvalorização da nossa brasilidade. Na tentativa de imitar o que faz sucesso lá fora, muita gente cria livros que se passam em Nova Iorque, Milão, Canadá ou Paris, com executivos, modelos, milionários e mafiosos, expondo
sobre universos e realidades que não vivem. Alguns nem sequer pesquisam na internet sobre a cidade em que inspiraram sua escrita. Para esses casos e os outros descritos acima, só posso usar um jargão para dizer o que eu penso:
Errou feio. Errou rude.
Acho lindo falar que toda a literatura é igual, não importa onde o livro é escrito, mas as coisas, na prática, não funcionam assim. Se uma editora grande precisar comprar um livro que se passa em Londres, ela prefere adquirir de um autor que mora lá, que fala com propriedade e conhecimento os costumes do
lugar, e não de um escritor que muitas vezes nem foi à Inglaterra. Se analisar bem, entre os nomes que são sucesso nas livrarias, como Raphael Montes, Mauricio Gomyde, Mila Wander, Carina Rissi e Nana Pavoulih, os personagens dele são brasileiros, com características com as quais nós nos identificamos. Moram em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília ou Belo Horizonte, andam de ônibus, com linhas que muita gente conhece, metrô, ou até mesmo o Uber. Passam por cidades que nós já passamos, falam gírias e
assuntos que fazem parte do nosso dia a dia.
Sei que muita gente, ao ler tudo o que eu disse, dirá que aquilo que eles escrevem parece clichê, uma fórmula pronta nas quais o leitor se identifica, uma zona de conforto e segurança, e por aí vai… Mas a vida não é uma sucessão de clichês? Não sonhamos e ansiamos com as mesmas coisas? De verdade, nada contra aqueles que gostam, mas ao me deparar com uma sinopse com o seguinte trecho – pterodáctilos machos, selvagens, bem dotados e sedentos por sexo – eu, com a experiência que tenho de mercado,
não julgo algo que merece ser trabalhado, deixo que caia no ostracismo.
Fiquem à vontade para me julgar.
Não existem mais histórias inéditas, que sejam totalmente originais. Em um momento ou outro, na escrita de uma trama, iremos criar um detalhe, que seja, já lido por alguém antes, pois somos todos imersos nas mesmas referências e informações. Aí é que vem a grande pergunta: entre tantos títulos, tantas coisas que surgem diariamente no mercado, como fazer um diferencial, o que fazer para ser um grande escritor entre tantos nomes?
Eu ouvi um termo que se aplica com exatidão ao que deve fazer: enfeitar o
pavão.

Pensa que cada história lançada é um pavão aos olhos do leitor. Com o rabo cheio de penas coloridas, desenhos intrínsecos, cores vivas e encantadoras.
Todos usam de sua pose, cores e andar para atrair os olhares, seduzir, mostrar que a sua história é a mais convidativa. E você está no meio disso tudo tentando chamar a atenção, mais um em meio à multidão. Sendo assim, dê um up no seu pavão. Enfeite-o. Porque não torná-lo um produto diferenciado?
Comece prezando pelo seu interior, a sua essência literária. Encontre a sua voz, unindo tudo aquilo que gosta e admira. Faça aquilo que chama de novo na sua maneira de contar a história. Pinte-a com cores novas, dê um novo formato às suas penas. Trate como se fosse algo que gostasse de ler, não que segue
modinhas ou porque vende. Coroe o seu leitor com o que há de melhor. Crie uma boa história, com todos os ingredientes que deseja sem excessos. Evite fazer o drama que parece uma novela latina, cheia de desgraças. Ou aquele erótico que acaba ficando com um roteiro de filme pornográfico B. Todos aqueles que se destacam no mercado fazem a diferença por criarem os seus próprios estilos, por fazer algo que todos nós já vimos em algum momento, mas de uma forma própria, nova. Entre tantas belas opções, eles mostraram que tinha algo a mais, deles, que ninguém conseguirá copiar. E garantem assim, o carinho e afeto dos leitores exatamente por isso. Por oferecerem o pavão mais belo e decorado, em meio a tantos pássaros exóticos iguais. Com isso, eles se tornam escritores, com sucesso em suas profissões. Pois não
importa o que escrevam, o público já se apaixonou por eles, e sabe que irão oferecer cada vez o melhor.
E você, já encontrou a sua voz? Em vez de ficar tentando chamar a atenção com coisas que não farão você se destacar, está pronto para enfeitar com sutileza, discrição e elegância o seu pavão? Pronto a fazer cada vez mais do seu livro algo que tenha a sua identidade, que reflita aquilo que os seus leitores
vivam, desejem e anseiem? Se a resposta for sim, está no caminho certo.

Bom, espero que tenham gostado do tema de hoje. Até a próxima semana com mais um Conversa nos Bastidores.
Um grande abraço,
Danilo Barbosa

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Danilo Barbosa é autor, agente e editor na Rico Produções. Quer acompanhar seu trabalho? Siga-o nas redes:

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